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quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Apenas Vingança



Atenção:
Este texto é obra de ficção com violência sem compromisso com a realidade recomendado para maiores de 16 anos.
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Dizem que dar o troco é negativo. Sentimento de júbilo momentâneo que desaparece, assim que o objetivo é atingido.  Não concordo. Perdura. Ecoa pelo mar de eternidade que julgo ser o universo poderoso sobre nossas cabeças, ao redor e dentro de nós. A vingança fez de mim o que sou. Gosto do que me tornei. Sinto-me livre. Verdadeiramente livre. Vingança e liberdade. Aháaah! Ssshuashuashuash!

Cruel e solitária é a franca liberdade, já a vingança fria; é lógica radical alucinante. Extasiante. Acabei tornando-me outra pessoa por causa do desejo de vingança no qual depositei a fé de que saciando-o obteria liberdade para mim e para meus mortos.  Tal processo funcionou e no final, o que verdadeiramente sou chegou a mim. Tive que abandonar muitos costumes. Inevitável. Adquiri outros. Há tanto a dizer. Vejamos...

Covardes e idiotas, dizem que tudo é relativo. Transformam assim suas vidas em um lamaçal para viverem patinando em pensamentos que não levam a lugar nenhum. Apesar de não considerar-me nenhum destes dois tipos, vivendo aprendi que em determinadas circunstâncias; os cretinos estão cobertos de razão.

Os hábitos nos moldam. É engraçado isto. Atividades que realizamos diariamente por anos a fio, nos tornam a pessoa que somos em todos os momentos da vida. Praticando-as ou não. Por isto livrarmo-nos de um mal hábito, coisa que entendo como vicio; é complicado. Difícil. Mas não impossível. Escuros longos caminhos angustiantes, aguardam o corajoso viajante que percorre e quer vencer esta estrada. Depois ficamos tristes e superamos; levando para sempre conosco o cadáver ressecado de um vampírico mal hábito que, passará o resto de nossas vidas aguardando uma pequena oportunidade de gota de sangue para despertar e nos fazer pagar caro por nossa ingrata rebeldia reacionária.

Somos inconscientes do quanto e, supomos erradamente o modo como hábitos fazem de nós o que somos; devido não à falta de cultura, mas pelo excesso de informação; que a escola engarrafa e encaixota, isto é; a forma ignóbil, hipócrita e traiçoeira que fomos ensinados a pensar a respeito de tudo.

Ensinam-nos o jeito certo de nos vermos, o que querer e principalmente, aprendemos sobre os motivos que justificam e enaltecem nossas práticas diárias para o sucesso. Mas esquecem de dizer que sucesso é uma ficção e que a vida humana não é uma novela com final feliz; porque a vida biológica das pessoas, prossegue humilde indefinidamente sem incomodar-se nem deter-se para receber honrarias até que o acaso, a velhice, doenças ou o próximo; interrompem o processo da vida levando-nos todos a desintegração.  O hábito ou costume é uma atividade que, transforma-se em rotina, mas, não apenas isto. Depois vira vício. Nosso corpo e mente viciam-se em ser de determinada maneira. Sabia que, certas pessoas ao abandonarem rotinas praticadas durante muitos anos; enlouquecem a ponto de não saberem mais quem são e, qual seria o seu lugar na própria vida que estabeleceram para si próprios? Sabe? Não sabe? Quer saber? Foda-se! Vou te falar!

Quando Noah Spotter Grimes, Bloody Grimes me feriu através da minha família; ví que o troco seria algo muito simples. Não haveria neste mundo, vingança proporcional ao que me foi roubado. Sofrimento indescritível. Soube logo de cara. Restava-me apenas, mera e humildemente; matá-lo sem acabar numa prisão. Para depois, pelo resto da vida que vivesse; caçar e matar todos os que fossem como ele. Sem exceção. Decidi assim. Bem ou mal, positivo ou negativo não importava mais. Não importa mais.

Mas naquela época, eu não sabia a extensão dos fatos. Era verde. Pode-se dizer que sentia ódio, mágoa por ter sido privado dos meus objetos de afeto, da minha própria identidade. A gente só sabe quem é, pelo tanto que significamos para os outros. Especialmente nossa família. Eu penso assim. Ou pensava. Muita coisa mudou. Muita coisa mudou mesmo. Depois de dias passados somados a semanas que, fecharam meses os quais encerraram estações gestando em mim, já não mais homem e sim, o fim-do-mundo; uma bela cristalina e cintilante singularidade.

Destaquei-me, primeiro involuntariamente depois conscientemente, do mundo habitual conhecido. Saltei fora, como uma gravura picotada é destacada da revista de papel. Deixei de consumir. Continuo indo ao banco do hipermercado. É necessário, mas, não sinto mais prazer algum em compra e venda.

Abateu-se sobre minhas carnes e meu eu interior, um silêncio pacífico. Semi apático ostracismo furioso.

Não sobrou nenhum hábito. Conseqüência de um, dos muitos “entendimentos” ou insights (sabedorias) que vieram posteriormente. Estou falando de vícios. Nasci sem eles. Isto é entendimento. Eu, você e todos. Meu corpo encheu-se de saúde e força, enquanto para o resto do mundo; tornava-me invisível.

Por vezes acho que perdi a lucidez ou, vivo uma lucidez diferente da definida nas enciclopédias e por profissionais da psiquê. A cada dia que passa, tudo fica mais claro e claro. Todas as atividades realizadas pelas pessoas que observo movendo-se neste mundo, por mim; são interpretadas sempre de modo não convencional. Observo indivíduos inseridos em totalidades. Avaliar os riscos gerados pelo movimento e atitudes individuais de uma pessoa ou grupo ficou fácil. A maioria dos viventes, não sabe o que faz. Eu entendo o verdadeiro motivo do garoto sair para comprar pão pela manhã, enquanto o gato da vizinha o observa pela janela e o ônibus quase o atropela passando apressado fazendo uma curva aberta demais numa manhã chuvosa e fria, não fosse alguém ter grudado com cola; moeda dourada na calçada em frente a casa dele.

O mundo inteiro me ajudou nisto de ser esquecido. Obrigado. Ninguém gosta de tragédia real. As pessoas não querem ter contato com a verdadeira desgraça alheia; primeiro porque ela fede. Mais? Extrapola a pré-concebida medida razoável do desespero; prova por A + B que ninguém está livre disto e, ela pode acontecer (e acontece mesmo) com qualquer um.

Por fim, tanto lhe disse que, vejo-me obrigado a iniciar a história. Estas afirmações, remetem-me ao começo de tudo. Alice minha querida. O assassino sem face. Minha busca. O dia, em que meus três filhos desapareceram. 

No dia fatídico em que meus três meninos sumiram. Lembro bem que foi pleno exibindo em seu decorrer; todas as estações do ano. Esplêndido para um fotógrafo, mas, péssimo para que pistas fossem preservadas. Ótimo para apagar rastros e enfraquecer uma família, um bairro; uma chama. Mas não, não devo desconcentrar-me. Existe uma ordem de acontecimentos e sensações. Existem paisagens, odores, dores, luzes, sombras, sentimentos e eu perdendo e perdendo perdido no meio de tudo. Para mim aconteceu assim:

Antes de amanhecer ainda havia resquício de lua redonda próxima a linha pitoresca de um horizonte azul porém, esfumado dispersando luz nas nuvens tingindo-as de rosa amarelo e laranja prometendo em breve; alvo claro sol implacável. Eu não havia pregado o olho a noite inteira. Estava de luto. Alice minha companheira, tinha cometido suicídio assim dizia a policia, havia dez dias apenas. Eu estava amanhecendo o décimo primeiro dia sozinho em nosso quarto, sob a influência de Cetamina, um anestésico. Vestia calças negras, cinto de couro escuro, camisa de manga comprida amarela e mocassins de couro claro. Esperava imóvel que o dia, dispersa-se minhas moléculas pelo ar matutino viçoso. Ambicionava a desintegração. Suave luz azulada, espalhava lembranças pelo ambiente. Desconstruía a madrugada como se fosse ela, um medo a ser banido para o éter surdo de uma lucidez impossível. Sentado no final da cama de casal impecavelmente arrumada, eu era observado pela paisagem semi-sombria. As luzes de um avião piscavam zombeteiras, bem alto, bem longe. Surgia brilho por entre  sobrados velhos e longos telhados robustos. Vista oferecida pelas escancaradas portas de madeira branca e vidro que davam para a sacada do que um dia, foi nosso quarto. Meu e de Alice.

Alguém bateu na porta. Era Lara minha sogra. Queria falar comigo. Queria falar comigo e chamar-me para o café. Esta era a deixa. Eu devia passar uma água no rosto, conversar com ela e ir ter com os meninos que, provavelmente já estavam de pé e preparavam-se para ir a Igreja, depois o cemitério e por fim a escola. Eu estabeleci para eles esta rotina. Íamos a igreja, orávamos por Alice e pensávamos o que quiséssemos. Em certos dias, rezávamos e acendíamos velas, em outros; xingávamos e cuspíamos em Santos. Depois confessávamo-nos e éramos perdoados. Se deus existir ganhamos tudo, caso não; nada perdemos e ainda extravasamos. Sorri para Lara e a abracei com um braço enquanto com o outro segurava-me a um alto gaveteiro de oito gavetas que mantinha trancado. Por baixo da minha roupa bonita de mangas compridas, curativos e bandagens. Sentia todo meu corpo machucado, dolorido. Surrado. Agonia.

Alice morreu em um motel da cidade baixa. Rodeada de drogas. Sozinha. Dizem eles os falastrões de plantão que, empesteiam nosso mundo com suas frivolidades. Ignorantes preguiçosos inimigos da clareza. Malditos sejam mil vezes, e que apodreçam no mais terrível inferno; enfiados bem fundo no rabo do capeta. Minha Alice jamais! Idiotas filhos da mãe. A mordida que ela mesma deu em seu braço esquerdo, diz: “fui assassinada”. Mensagem apenas para mim. Alice morreu ao meu lado na cama. Fui acordado pelo disparo de vinte e dois. Fofocam as pessoas. A tudo distorcem os burros idiotas. Alice, jogou-se da sacada do nosso sobrado e, partiu a coluna cervical nos paralelepípedos da rua morrendo asfixiada. Alice fez a passagem na água morna da banheira cortando os pulsos. Por aí vai. E vai... E...

Disfarçado pelas ruas do bairro, já escutei e encorajei todo tipo de especulação. Ontem agindo incógnito como quem não quer nada, fui recompensado pela resposta correta; vinda de um jovem alto e não muito amigo de chuveiros, momentos antes de fecharem a última padaria. O segui. Ele morava num quarto e sala, colado anexo a um grande casarão abandonado, num escuro estreito beco próximo. Entrou em sua morada e fechou a porta. O céu noturno trovejou cuspindo luzes molhadas. Desatou a chover. Dois minutos depois, arrombei a porta na pernada. O cara estava à beira de uma mesa pequena, com a boca cheia de pão. Ao mesmo tempo fumava. Havia uma pia cheia de louça suja, geladeira, um fogão âmbar de gordura. Armário baratas. O chão sujo granulado, estralou sob meu caminhar quando arregalado saltei desesperadamente sobre ele; fazendo a mesa abrir as pernas com meu peso desequilibrando-o. Partimos em pedaços a cadeira onde ele descansava o esqueleto com a soma de nossas massas. Caímos embolados pelo chão. Senti faquinha de cabo de plástico usada para cortar pão penetrando na minha perna. O filho da puta, estava me esfaqueando. Esfaqueando! Segurei a mão que me ofendia, mantendo a faca enterrada na coxa. Com os dentes mordi seu nariz aquilino pontudo até sentir a cartilagem romper-se e minha boca encher-se de ranho e sangue. Desarmei-o. Joguei a faca na direção da pia para que fosse lavada e levantei-me lívido, com o rosto rubro de sangue num tranco, arrastando pelos cabelos o infeliz que esperneava, para dentro do banheiro onde tranquei a porta e enfiei sua cabeça pensante de caspa, no vaso sanitário enquanto lhe torcia um braço. Você me contará tudo seu imundo maldito. Tudo!!!

– Alice morreu na cozinha! – Disse ele, o Grimes e, eu respondi que sim.  O safado sabia que estava fodido.

– Ela não tirou a própria vida, não é? – Perguntei congestionado de fúria mas procurando alívio.  Ao que ele retrucou que não. Ele disse que a morte de Alice não tinha como ser suicídio porque ele, Noah Spotter Grimes a tinha matado e mataria mais. Lamentava-se por Alice não ter tido a chance de viver mais duas vidas, pois ele adoraria acabar com ela novamente. Era isto que o fazia seguir em frente. Matar. 

Eu e Alice quando jovens havíamos feito um pacto. Para casos de assassinato. Caso um de nós morresse assassinado, uma mordida no braço direito indicaria que o matador era conhecido. Se fosse desconhecido, mordida no braço esquerdo. 

No dia do fim-do-mundo de Alice ele a atraiu usando ruído. Ficou dando petelecos a cada dez segundos num copo de cristal na cozinha. Meu sono é de pedra, então quem apareceu para conferir a origem do som de arma em punho foi ela. Ele a pegou desprevenida por trás. Na cozinha coberta pela penumbra e banhada por fraca opaca luz fluorescente verde vinda de dispositivos eletrônicos. Ele usou nosso revolver Apache. Um revolver que ao invés de cano apresenta lâmina de punhal e a coronha é soco inglês. Tapou-lhe a boca com uma das mãos. Com a outra, guiou o Apache contra a cabeça da dona e entrelaçando seus dedos com os dedos dela primiu o gatilho. E foi o fim de minha vida Alice que antes de partir cumpriu sua parte do pacto. Aí ele atirou cadeira de ferro contra janela de vidro fumê, fugindo noite adentro pela abertura. As pessoas acreditam no que querem acreditar e sempre confundem a ordem das coisas. Agora estava em minhas mãos. E então, ele riu. De dentro de suas risadas naquele corpo magro, surgiu força inexplicável e ele ergueu a cabeça d’água fétida castanha. Lançou-se para cima e para trás comigo agarrado nele. Minhas costas explodiram um grande espelho fixado na parede encardida do banheiro e o atravessamos, caindo dentro de um ambiente secreto oculto. Estávamos no grande casarão abandonado, covil anexo ao quarto e sala de Bloody Grimes. Havia pessoas secas  acorrentadas nas paredes. Rolei pelo chão bolorento. Minha mão foi parar sobre um tijolinho de barro cozido maciço. O fiz  explodir contra o maxilar de Grimes que, cuspiu dentes e atingiu-me com a canela da perna comprida minha têmpora, antes de ir ao chão novamente. Tonto com o chute e irado cambaleei praguejando contra o assassino procurando algo para bater. Encontrei um bom pedaço de grossa corrente enferrujada disponível no chão repleto de detritos esterco de ratazana. Catei ela prontamente. Ao ver o que tinha achado, Grimes deu um guincho magoado afastando-se de rastos sem me dar as costas. “Agora você vai ver o que é bom Grimes, meu camaradinha!!!” – Rosnei para ele que, tinha chegado a um pequeno armário de ferro encostado a uma parede coberta de limo e teias de aranha marrom cabeluda. O safadão, ia abrindo a portinha deste armário e enfiando a mão quando, lhe dei uma bruta correntada que arrancou faíscas do armário de ferro aparando-lhe a sujidade das unhas, fazendo-o gritar como se fosse uma menininha. No processo, algo que ele havia pego escapou de seus dedos e, subiu rodopiando para o alto voando no ar úmido poeirento recortado de fachos de luz do casarão. Parecia uma chave e ao mesmo tempo; arma de fogo. Peguei o troço em pleno ar e com apenas um ligeiro golpe de vista, minha inteligência compreendeu a utilização daquele objeto de funções antagônicas. Aprisionar e libertar. Era uma chave lavrada em um cano de ferro calibre 22 onde, na empunhadura feita para facilitar o movimento de tranca da porta de uma prisão provavelmente; havia também um gatilho que iniciava o processo de disparo de uma única bala de chumbo. Enfiei a chave em um dos globos oculares de Grimes. Girei a bicha lá dentro pensando se, conseguiria destrancar-lhe o cérebro; enquanto ele enchia as calças de melaço. Depois, de posição dominante disparei de cima para baixo, ainda girando chave em sua fechadura ocular; e mais uma bala conheceu o aconchego do corpo. Furou a carne mole do palato, também a língua e pelancas do maxilar inferior; indo parar encravada nos ossos do externo em seu peito. Minha gente, espirrou uma enormidade de sangue e baba tão grande; que só vendo para crer. Impressionante. Mas ele não morreu. Não soube deste fato na hora; por estar em estado de choque e histeria. A quantidade de violência perpetrada por ele e eu, fora tão grande e intensa para minha pessoa que, meu cérebro embotou os pensamentos e passei a acreditar não na realidade do que via mas sim, no que queria acreditar. Vi Grimes morto mas movendo-se havia de estar pois, após eu abandonar aquelas masmorras imundas, cruzar o banheiro vermelho de sangue; tropeçar nos móveis destruídos da sala, levei a mão aos bolsos da calça e agradeci a Deus. Meu aparelho de comunicação especial estava lá ainda. Uma sombra encharcada me esperava evaporando água do corpo quente no umbral da porta de saída daquele pardieiro. Vestia-se com uniforme de carteiro. O carteiro barbado que havia algum tempo, entregava a correspondência na nossa casa. Com um movimento repentino ele arrancou do rosto a barba postiça, olhou-me com os mesmos olhos que eu acabava de deixar mortos para trás. Mas não podia ser possível. Um dos olhos eu havia furado e atirado mas agora estavam perfeitos. Ronco profundo surgiu do peito da figura sombria e ela zurrou junto com a tempestade:

– Grimes! Eternamente Grrrrrrrimmmmmesss!!! – Senti o primeiro murro trincar alguns de meus dentes. Pedalando no ar, Grimes deslocou um de meus joelhos que, voltou ao lugar na base do baque surdo quando, uma patada dele explodiu em minha virilha e caí de joelhos. Lutador. Magoadíssimo de dor, retirei a mão do bolso e apontei para ele meu comunicador que assemelha-se a um aparelho celular do ano de dois mil e cinco que, além de se comunicar, também dispara quatro tiros. O descarreguei em Grimes esperando desesperadamente que, ele morresse e, ficasse morto desta vez para sempre. Por graça divina, não errei um. Ele assustado sacudiu-se ao som e impacto dos tiros. Parecia revoltado como um insatisfeito dançarino endemoniado em brasas ou agulhas envenenadas de ódio, fúria e desespero espirrando água da chuva, carne, vômito e sangue arterial para todos os lados enquanto; batendo-se pelas paredes gritava a plenos pulmões seu próprio nome e me amaldiçoava.

Ao final de tão dramática performance, tomado por convulsão dura de pedra caiu mortinho da Silva pelo chão de sua morada devassada repleta de dejetos; enquanto eu cruzando por sobre seu cadáver inútil, ganhava a liberdade gelada da rua estreita do beco, onde chovia cântaros que lavavam meus ferimentos, meu fedor de medo; minhas lágrimas amargas agora invisíveis misturadas com água de chuva noturna. Tudo isto, apenas para encontrar novamente Grimes me encarando lá no início do beco. De seu longo sobretudo cinza encharcado ele fez surgir um lançador de foguetes portátil. Enquanto o apontava para mim e gritava seu nome novamente, eu fiz o que qualquer um faria. Dei no pé, voltando para trás pelo caminho de onde vim. Foi uma coisa boa para minha sanidade ter feito isto. Durante a carreira, pude ver que um dos Grimes que  supunha ter abatido, havia encontrado o outro Grimes e ao tentar ajudar, acabou morrendo sobre o outro. Então Grimes estava sobre Grimes, coberto por seu próprio sangue; em uma posição por assim dizer no mínimo, incestuosa. Mas isto logo evaporou-se do meu pensamento; quando rebolei meio descoordenado quicando na parede do banheiro e me metendo de qualquer jeito masmorra adentro, enquanto o calor da explosão carcomia tudo o que havia deixado para trás incinerando os fatos. Aquela construção antiga era grande. Longa. Escura. Escondido esperei e considerei o acontecido até o momento; quando um tempo depois consegui interceptar e capturar o terceiro Grimes. Estava segurando uma ratazana viva que silenciosa mordia furibundamente o pano que a enrolava numa mão e na outra, um gancho comprido de aço dobrado em mesa de prego muito usado em construção; quando ele surgiu do lugar por onde menos o esperava. Sobre mim. Eu estava dentro de uma fossa seca coberta por um tablado. Ele tinha vindo pelo telhado movendo-se como um macaco nos caibros do vigamento. Daí para eu enfiar-lhe a ratazana pelas pernas de sua calça adentro não foi nada. Grimes sentindo as garras e os beijinhos daquela bicha malvada, largou prontamente seu lançador portátil no chão e saiu rolando pelo pó tentando salvar as bolas de seu saco cabeludo fedido. Larguei também meu gancho e, saindo da fossa tomei posse do lançador. Voltei para dentro dela e fiquei fazendo mira observando Grimes que, se afastava rolando ainda pelo chão em seu combate feroz até, que ele conseguiu pega-la pelo pescoço. Abriu a braguilha e foi retirando-a suada lentamente de dentro das calças. Coisa degradante e escrota de se ver. Ela a ratazana, deve ter feito os maiores estragos neste Grimes por que, ele de tão furioso com ela lhe arrancou a cabeça com uma só mordida. Nesta hora eu o chamei e disse:
– Ô Grimes?! Quem são vocês? Por que matou Alice? Foi só um? Ou foram os três? Trigêmeos huh?
Ele limitou-se a arreganhar os dentes e gritar para mim:
– Grrrrriiimmmmmes vai fazer com que se arrependa de ter nascido!!!
– Já matei dois. Você será o terceiro. Tem mais?

Ele começou a rir. Gargalhava. Eu tolo idiota?

Neste momento, simplesmente acionei o dispositivo pressionando o gatilho escondendo-me na fossa rasa e seca enquanto tudo vinha abaixo. Instantes depois facilmente me vi livre dos escombros e achei meu caminho pra casa. Já lhes contei como amanhecí. Lhes disse também que Lara minha sogra foi chamar-me em meu quarto para acordar as crianças. O que não contei ainda, é que quando Lara e eu chegamos ao quarto dos meninos, eles não estavam mais lá. Que enquanto eu matava Grimes, Grimes na calada da noite raptava meus filhos. Eu procurava embaixo da cama enquanto Lara ia na direção das portas do armário que abriram-se sozinhas com força. De lá de dentro veio novamente Grimes agora vestido de preto e usando um DIY Wrist Crossbow, potente besta de pulso auto recarregável que dispara pequenas flechas de aço mortíferas. Lara recebeu quatro delas em rápida seqüência. Uma na testa, nos dois globos oculares que perderam-se lá dentro daquela imensidão e uma no coração que deixou apenas as penas à mostra. As pequenas setinhas deviam estar com sedativo muito forte pois venceu a química da Cetamina e me pôs para dormir. Acordei um tempo depois no porão úmido de uma delegacia com um investigador bruto dando na minha cara. Foi bem complicado sair dali, mas isto fica para outra história um dia quem sabe. Será o mundo repleto deles?


segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Matança Total




Apresentação

Quando amanhecer e você encontrar a colina rochosa em contraste com o céu em chamas, ajoelhe-se encostando apenas um dos joelhos no chão. Abaixe a cabeça. Faça um minuto de silêncio. Lembre-se dos que lutaram e morreram nas guerras. Se cada um deles sem exceção não tivesse feito o que fez, você não estaria aquí.

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*****




 





Introdução

Existe. Ela existe até hoje. É uma colina ancestral entre Bulgária, Grécia e Albânia. Não, não há nada demais nela. Nada que salte aos olhos dos passantes. Para a maioria das pessoas, é quando muito, apenas uma corcunda sólida de magmático Granito, extrusivo Basalto e metamórfico Mármore de médio porte; unida por terra argilosa que de tanto ser pisada, socada e cozida pelo sol ao longo dos milênios; tornou-se também dura como pedra. Não há nenhum tipo de vida vegetal que lá consiga fincar raízes ou absorver água. Mas a verdade, é que aquela colina é muito especial. Possui uma história. Uma não! Milhares. Milhares, imagina?! Vou lhes contar apenas uma e não será longa. Algo que aconteceu comigo que nasci aos pés desta massa, e agora curto velhice depois de ter corrido o mundo inteiro; em um pitoresco vilarejo a apenas uma hora de carro deste monumento, a todos os guerreiros que viveram no passado, e aos que ainda virão futuro afora. Claro, que se você pensa de outra forma, posso desdizer o que disse, e afirmar diferente. Digo então; que nesta colina nunca houve passado ou futuro. Apenas presente. Um combate contínuo, que estende-se desde o início de sua existência através do tempo. De outra forma, também posso livre e tranquilamente afirmar; que é apenas passado. Um passado repetitivo de lutas; a jorrar indefinidamente futuro a dentro. Séculos, para que servem séculos? Eras? Para ela, não são nada.

1

Você sabe o que é um algoz? Sabe mesmo? Acho que não. Acho que você não sabe. Isto nem é culpa sua. Poucos sabem. Ser ignorante sobre algozes é uma bênção. Você deve ficar orgulhoso de ser tolo. Mantenha-se assim até quando puder. Até quando a vida deixar. Agüente o máximo. Este é meu conselho. Claro que quando tua hora chegar, e creia, inevitavelmente ela um dia chega mesmo, para todo mundo; você não saberá se defender e morrerá de imediato. Como os carneiros e ovelhas. Mas isto não me importa. Eu não me importo com sua vida. Tenho algo mais importante para fazer. Contar a minha história.

Uma linha fronteiriça de quatrocentos e setenta e seis quilômetros corta mundos. Ao sul da Bulgária e o nordeste da Grécia temos a tríplice fronteira Bulgo-Greco-Macedônica. Mais a leste, outra fronteira tripla. A Bulgo-Greco-Turco Européia. Não esquecendo que, onde passa o Rio Maritsa, há a ruptura das periferias helênicas da Macedônia Central.

Se houvesse nascido aquí nestas terras, em 350 A/C, seria o que sou hoje porém, não cidadão Albanês. Teria nascido na Ilíria e seria chamado do que quer que eles se chamassem na época. Seria também um Celta provavelmente. Mercenário, guerreiro, herói, cavaleiro, assassino, traidor, libertador. Escolha o título que quiser. Nunca saberão de verdade quem eu sou, muito menos o que me tornei. Mas não foi sempre assim. Nunca é. Nos anos 60 eu tinha quinze anos. Era bondoso, gentil, solidário e leal. Quase não consigo acreditar.


2

Na calada da noite, invadiram nossas terras. Entraram na casa da minha família comigo, pai, mãe, meus dois irmãos e irmãs dentro. Houve luta. Mas não logo de início. Eram Chineses. Seis homens armados de fuzis e metralhadoras, usando coletes bulet proof. Em suas cinturas, mais armas. Estranhas. Altos, grandes e fortes, aparentavam terem vivido vidas longas e violentas. O mais velho deles, liderava Han, Zhang, Zhongli, Cao e He. Se chamava Shaohao, o abutre. Eles tinham vindo de longe. Vinham de longe, cobrar uma antiga dívida contraída por meu genitor que, com o passar dos anos, convenientemente acabou esquecendo de nos contar. O preço era um de seus três filhos.

Meu pai sentou-se a mesa com Shaohao. Um de frente para o outro. Esperaram em silêncio, enquanto nossa mãe preparava Chá Branco. Zhongli a vigiava. Eu e meus irmãos, estávamos contra a parede da sala. Han revistava nossas roupas. Zhang despia os homens. Cao e He sem nenhum vestígio de lascívia, mandaram as meninas fazerem o mesmo. E assim ficamos nós cinco. Nus e abraçados formando um bolinho, com nossas irmãs no meio. Cinco jovens, cercados por quatro chineses mal encarados, que aparentavam pertencer ao exército vermelho. Aliado da Albânia na época.

O chá ficou pronto. Minha mãe serviu os dois. Enquanto ela segurava o pires da xícara de chá, notei que ela não tremia. Aparentava não ter medo nenhum minha mãe. Era uma mulher alta, forte como um touro, roliça e corada. Seu rosto era uma máscara de neutralidade que não transmitia sentimentos. Papai também. Meu velho, era um homem atarracado de pele alva, mãos enormes com braços e pernas grossas; como troncos de árvores. Fiquei morrendo de medo dos dois. Era como se visse pela primeira vez, como eram de verdade. Sem máscaras. Ao lado daqueles homens monstruosos, estavam entre seus pares. Iguais.

Meus pais foram revolucionários. Os chineses os recrutaram quando muito jovens. Passaram um tempo na China. Não sei o que aconteceu por lá. Nunca tocaram no assunto. Fizeram o que tinham de fazer e aposentaram-se. Foram deixados em paz. Estabeleceram-se nestas terras por serem daqui mesmo. Começaram a trabalhar duro nos campos e foi aí, que começamos a nascer deles um por um. Um atrás do outro sem parar, até sermos cinco irmãos. Nunca fomos a escola. Nossos pais nos ensinaram tudo. Sabíamos ler e escrever bem. Em várias línguas. Sabíamos matemática, física e filosofia. Mecânica. Sabíamos montar cavalos, adestramento e manejar facões, forcados, marretas, lanças e tridentes; que não são forcados e sim, lanças de três pontas destinadas a combates, e arremesso. Sabíamos defesa pessoal e criar objetos de aço, usando fôrmas de argila. Entretanto, saber era inútil frente a estas pessoas. “Nenhum de nós cinco consegue.” – Pensei eu naquela hora – “Talvez a mãe derrube um. O pai com certeza abate dois. Depois morremos todos.”

– Não façam nada! – Meu irmão mais velho disse baixinho, entre dentes.

Han, Zhang, Zhongli, Cao e He sorriram.

Shaohao, o abutre, sorveu um gole de chá. A sombra de um sorriso, pousou em seus lábios finos, semi-cobertos por um longo bigode branco e fino; que lhe chegava até a altura do peito. Foi então que meu pai falou:

– O tempo não tem mesmo efeito em ti mestre. Que nome usa atualmente? Algum dia saberei seu verdadeiro nome?
– Somos apenas sombras fugazes, passando ligeiras sobre o vale.
– Nós cumprimos nossa parte. Existem tantos outros. Deixe-nos em paz mestre.
Shaohao guardou siléncio por um instante.
– Sempre questionador. Sempre seguindo sua verdade interior, em detrimento da verdade maior. Caso queira saber nossos nomes atuais, pergunte a seu filho. Ele sabe.
– Qual deles?
– Você sabe. Sabe desde antes dele nascer. Você não cumpriu totalmente com sua parte do trato. Transmutações foram realizadas, acordos foram feitos e, muitas vidas foram gastas; para que pudéssemos ligar nossos caminhos novamente. Só porque você não cumpriu seu juramento. Era só o ter entregue seis meses após o nascimento no Monastério. Uma viagem de quinze dias, no mundo moderno. Mas não, vocês não fizeram isto. Então, nós tivemos que atravessar o portal. Três imortais foram apagados da vida temporariamente, por causa disto. Dez gerações. Dez.

Meu pai tomou um susto. Não agüentou sustentar o olhar de Shaohao. Então disse:

– Posso escolher o lugar do julgamento?

Shaohao o olhou com desdém.

– Voltaste rapidamente a pensar como um ocidental não é? Tu sabes que escolheste o lugar ao colocar os pés nesta terra impura, no primeiro dia após seu retorno. Terra de ninguém. Onde legiões e generais são tratados como escória e enviados ao inferno sem direito de defesa. Escolheste bem o terreno, meu ingrato discípulo.

– Eles também estão inscritos no livro da vida e do destino. Eu apenas queria que pudessem conhecer outros mundos antes de...

Minha mãe, que estava atrás de papai colocou a mão em seu ombro, e ele se calou.

Shaohao ao terminar o chá levantou-se, nos cumprimentou e foi lá para fora. O último a sair foi Han que disse:

– Vocês tem hora e meia para chegarem até lá. Estaremos esperando.

Subiram em um monstruoso caminhão do exército vermelho. Partiram nos deixando escuros, em siléncio. Gargantas secas. Alma embotada.


3

A última coisa que papai nos disse, foi um ensinamento. Minha mãe olhava firme para nós, deixando claro que papai falava pelos dois. Nunca esquecerei a força daquele olhar. Digno, forte, inteligente, sobre-humano e furioso.

– Todos os valores ocidentais, suas leis, planos, metas, livros. Todo pensamento é apenas uma abstração, para que o corpo suporte a pressão dos mundos. Os orientais, apesar de sua arrogância, também vão pelo caminho errado pois, seu caminho é invertido. Não os leva até o próximo nível; apenas os faz retornar a pureza inicial. A questão não é sobreviver. Já estamos todos mortos. O negócio é o seguinte; aprendam o máximo que puderem hoje. Renasçam disto se puderem. Nunca mais terão esta oportunidade. Vistam-se com roupas confortáveis. Calcem sapatos resistentes. Peguem as armas de sua preferência. Apenas uma para cada um. Lhes daremos de comer e beber. Depois, nos esperem na frente a Kombi.

Éramos cinco irmãos. O mais velho tinha dezessete, o segundo dezesseis, o terceiro que era eu, quinze. Minhas duas irmãs, tinham quatorze e treze anos. Obedecemos a nosso pai. Vestimo-nos com algo semelhante a moletons. Alguns calçaram sandálias de corda, que permitiam movimentos leves e ligeiros. Outros, sandálias no estilo de legionários romanos. De couro, com solado de couro, no qual eram fixadas ferraduras. Do calcanhar ao dedão do pé. Calcei sandálias legionárias. Usando estas sandálias, os meus antepassados Romanos, marcharam por toda a Albânia; esmagando sob seus pés os inimigos caídos. Uma pisada dela já era um martírio. Imagine uma legião sob o comando de cinco Centuriões, perfazendo o total de quinhentos homens marchando com elas; sobre guerreiros caídos ainda vivos, com ferimentos nas pernas, ventre, pulmões, tendões; ... etc. Todos vestimos protetores de canela e joelhos, as grevas. Depois fomos comer. Comemos bem. Não demais. Comemos mel, mingau de aveia, trigo, nata, creme, ovos, pão de centeio e nacos de porco. Bebemos água fresca.

Papai nos aqueceu. Corremos por dez minutos ao redor da casa. Mamãe nos alongou nos estábulos. Os alongamentos dela, que no início, eram seções de dor excruciante; com o passar do tempo, transformaram-se em prazer, e depois um vício. Necessidade. Até, que tornou-se parte cotidiana de nossas vidas. Como respirar ou ir ao banheiro.

Após estas atividades, nos abraçamos uma última vez.
Meu bravo irmão mais velho, e minha linda irmã mais nova, encilharam os dois melhores cavalos, equipando-os com tudo que fosse necessário para um viagem de quinze dias. Depois partiram rumo ignorado. Meu irmão mais velho, parecia saber onde ir. Tudo fazia parte de um plano elaborado por meus pais. Nunca, nenhum de nós conheceu sua totalidade creio eu. Melhor assim.

Eu enxergava o mundo com uma crueza e seriedade intensa. Um mundo duro e frio. Sem cores berrantes. Todas as sensações corporais equilibradas. Nenhuma sobrepondo-se a outra. Sem saudade, alegria ou medo. Aquela foi a última vez que estivemos juntos. Sabíamos claramente. Esta era nossa força. Verdade sem véu. Sem céu ou inferno. Apenas a luta. A guerra. Inteligência, velocidade, avanços, recuos, força, violência, tática e técnica. Mas havia ar fresco. O cheiro orvalhado madeira agreste natural na noite. Morcegos. Aves migrando pelo céu noturno. Lua gigante. Chuva a caminho no horizonte. O dia ia amanhecer em breve. Eles vieram na calada da noite. Dedos de neblina acariciando montes. Entramos na Kombi e partimos. Rumo a colina.

Cruzamos um fundo de vale coberto de cerração. Nosso carro atravessou um riacho pedregoso, de água cristalina. Havia uma vaca morta próximo a água. Presa por arames farpados ao redor do pescoço havia enforcado-se. De seu corpo inchado escorria secreção. Isto, longe de contaminar a água, fortaleceria os peixes. Cruzamos na reta com trabalhadores rurais calados e sombrios. Suas bestas cansadas arrastavam carroças cheias de sementes, apetrechos, água e carne salgada. Uma raposa vermelha atravessou a estrada. Corvos nos acompanharam em revoada. Faltava pouco, muito pouco para o dia amanhecer.


4

Um quilômetro a frente avistamos o morrinho. Seguíamos em silêncio. Éramos cinco. Pai, mãe, um irmão mais velho, uma irmã mais nova e eu. A medida que nos aproximávamos, vimos lá no alto sobre ela, aves carniceiras pairando em círculos. Centenas. Naquele ponto, a inversão térmica da noite dando lugar ao dia; gerava ventos que ajudavam estas criaturas a elevarem-se a alturas impressionantes. Sabíamos, que este não era o motivo delas estarem lá naquele dia. O motivo era outro. Acho que você entende.

Falando sobre você; gostaria de saber, se já começaste a entender o que significa algoz?
Uma das características mais marcantes de um bom verdugo, é fazer você sentir-se culpado. Culpado por tudo. Pela morte de amigos, irmãos, pais. O desalmado perfeito, tem o dom de lhe fazer crer, que você merece ser punido. Enquanto houver vida, ele lhe repetirá a promessa enganosa dividida em duas partes. A mesma promessa, travestida com roupas diferentes desde o início dos tempos. A possibilidade de livrar-se da dor. Que seria a bênção da morte. E uma promessa de vida se, você arrepender-se e entregar-lhe tudo. Quando digo tudo é tudo. O algoz, mantém essa chama acessa, brilhando forte; até o último instante. Até não sobrar nada de você. Porque você deu tudo. Até o sujeito tornar-se irreconhecível para si próprio. Escuro de tão aviltado. Normalmente nesta hora; você já não é mais um ser humano. E eles lhe matam friamente, com distanciamento; como se mata um cão. Menos que um cão. Caso você esteja no nível canino, e eles simpatizarem muito com você; lhe deixam viver. Aí, podes voltar a desfrutar das delícias da vida. Mas vivendo como um cão. Fazendo coisas que cachorros fazem. Vida de bicho animal. Que tal? Não? Não concorda?

Então lutemos. Lutemos até a morte. Sabemos que vamos perder, todavia isto é o de menos. Lutemos com ferocidade pois, uma morte em combate é rápida como o raio, e leve como a pluma. E humana. E digna. E piedosa. E blá-blá-blá. E coisa e tal.

Naquela época, eu não sabia que estava errado; mas esta era minha única opção. Não ouso me arrepender das escolhas que faço. E você, se for esperto, também não. Também não. Também não. É possível, construir um lugar em sua mente onde ninguém possa lhe tocar. Não é todo mundo que consegue. Poucos. Muito poucos são, hábeis suficiente para isto. E é mais fácil entrar do que sair. Mais fácil entrar do que sair.

O sol raiou um novo dia por de trás da colina. Um nascer perfeito por um instante. Rubro, ouro, púrpura e vermelho sangue. Cordas de neblina serpenteavam pela corcunda pedregosa. Pássaros negros grasnavam em contraste com aquele amanhecer. Shaohao e os seus, nos esperavam lá em cima, na pedra mais alta da elevação. Descemos do carro. Estávamos em casa. Treinávamos naquele monte, desde que éramos pequenos. Conhecíamos aquele lugar como a palma de nossas mãos. O impressionante, é que os Chineses também. De alguma forma que não sei; também. Senti isto. Certeza.

O esplendor foi-se embora. O céu fechou. Uma garoa fina aconteceu. O vento norte chegou. Não sentimos. Paramos a Kombi aos pés da colina. Subimos a pé. Esticávamos nossos músculos. Aquecíamos nossos corpos usando movimento. Concentrávamo-nos.
Havia chegado a hora de morrer. Éramos tão jovens. Até meus pais eram jovens. Foi tudo há muito tempo atrás. O que meus pais sabiam naquele tempo, só começo a compreender agora. Sou um velho. Um velho com suas memórias. Um velho com histórias.
Se não é do seu interesse; paro de contar agora. Deixo este conto para os outros. Outros que possam querer o que tenho para contar. Em outros tempos. Outras eras. Quem vai saber? Eu não sei. Vai saber você?


5

Alcançamos o alto da colina. Pai e mãe iam a frente. Depois meu irmão e eu. Mina irmã seguia calmamente atrás de mim. Não estávamos cansados. Aquela subida não era nada. Um círculo de combate com quinze metros de diâmetro fora estabelecido. O terreno acidentado da corcunda, tinha duzentos por cento e dez metros. Medidas exatas.

Meu pai e Shaohao, foram para um canto negociar regras de combate. Um truque cruel, que deu a meu pai, três vantagens compostas. Generosas vantagens. Não para mim. Nunca. Mas ele sabia o que fazia.

Fechei os olhos e me concentrei. Ouvi o dialogo pela cabeça de Shaohao. Foi assim:

– Você agiu errado conosco. Será punido. Nos deu trabalho. – Começou Shaohao.
– Eu e minha mulher cumprimos com nossa missão. Desempenhamos nossos papéis a perfeição. A organização, estaria acabada se não tivéssemos sido bem sucedidos. Vocês nos treinaram bem. – Ripostou meu pai.
– Não bem o suficiente, para que aprendessem que ninguém nos escapa. Ainda mais pais de predestinados.
– Quem disse, que pretendíamos escapar?
– Quando eu te elevei ao éter e além; o que foi que você viu e não me contou? O que está trancado em suas mentes que não revelam?
– Estabeleçamos um acordo, que seja satisfatório para ambos, e este conhecimento será seu.
– Não volto para China sem sua alma. – Fala Shaohao.
– Que minha alma seja sua, depois do combate. Mas desejo quatro vantagens.
– Não volto para China sem a alma da tua mulher.
– Que a alma dela seja sua, depois do combate. Desejo três vantagens.
– Não volto para China sem o garoto. Ele é meu.
– Que seja assim, após o combate. Exijo três vantagens.
– E quais seriam elas?
– Os dois que partiram a cavalo são irrelevantes. Deixa-os em paz para sempre. – Pede meu pai.
– Certo. Estas são duas vantagens.
– Uma. Uma vantagem. Eles são irrelevantes e fracos. – Afirma meu pai.
– Duas vantagens.
– Mestre, se continuares agindo assim; sairás das minhas terras de mãos vazias. Sem meu segredo, sem o garoto e sem almas. Eu paro meu coração agora. Os outros fazem o mesmo. Iremos para um nível diferente do seu. Ficará sem nada. Escaparemos por entre seus dedos. Só não faço isto agora, por adorar a vida.
– Certo. Uma vantagem. Quais seriam as outras duas?
– Quem cair em combate; deve ficar no chão até o encerramento do último combate. Devendo lutar como homens. Nada mais nada menos. Esta é a primeira vantagem dividida em duas fases.
– De acordo. A segunda vantagem por favor?
– A menina mais nova, parte agora une-se a seus irmãos a cavalo. Vocês a deixam em paz para sempre.
– Aí já é demais! – Sahohao pragueja em Chinês irritado. Vou correr o risco então. Levarei quantas almas puder. E os dois que escaparam, serão meus cães por toda a vida miserável deles.
– Reformulo a segunda vantagem mestre.
– Diga.
– A mais nova combate ao lado do irmão mais velho. Caso sobreviva; ela fica livre. Se não ela é tua. Caso o mais velho sobreviva ou não ele é teu. E fique com o médium contudo...
– O que?
– Após combate. Deixe-o lutar por sua liberdade ao menos.

Shaohao dá uma gargalhada. E diz:

– Lhe faço uma contraproposta geral. O garoto luta comigo agora, e se me deitar no chão; todos podem ir, inclusive ele. Que sejam felizes para sempre com a minha bênção. Mas se o garoto perder todos virão comigo. Selaremos laços eternos.

É a vez de meu pai gargalhar.

– Fico com a proposta anterior. Recuso sua contraproposta. – Afirma papai.
– O garoto deve decidir. – Riposta Shaohao.

Meu pai se vira para mim e me olha fixamente a distância.

– Meu pai é senhor do meu destino. ¬– Respondi eu. Mas o que eu queria mesmo, era salvar todos. Nem que fosse a custo de minha vida. Shaohao pareceu ficar satisfeito com isto.
– Parece que você conseguiu suas três vantagens. Seu poder de negociação desenvolveu-se exponencialmente. Vantagem primeira liberdade para o primogênito e a caçula e luta justa. Segunda vantagem possibilidade de liberdade plena para a segunda filha a custo do segundo mais velho. Terceira vantagem, direito de defesa para o predestinado.
– O que são vocês? – Pergunta papai – Usam nomes de deuses; entretanto, não o são. Vestem uniformes vermelhos todavia não dividem a mesma ideologia. Espalham-se pelo mundo inteiro mas não são vistos. O que são vocês?
– Discípulo. Tens olhos argutos. Não adianta forçares mais tua capacidade de compreensão. Chegaste ao limite do humanamente possível. Há muito tempo os Deuses partiram deste mundo. O que sobrou foram sombras, reflexos, espelhos. Seu filho não é um grande médium; é apenas uma pequena ponte que vai nos servir enquanto agüentar.

Encerraram as negociações. Aí veio o combate. Chegou hora das dores. Tempo de matar.

Papai passou por nós, olhando em nossos olhos. Estávamos alinhados lado a lado, segurando nossas armas. Cabeça erguidas para podermos ver melhor.


6

Meu velho entrou no círculo, usando apenas uma faca Katar de duas lâminas uma ao lado da outra. O Katar é um arma em forma de H onde uma das extremidades termina em lâmina e a outra em duas hastes. Que podem ser invertidas para socar. Depende do design da extremidade do H. Era um Katar simples e forte de sessenta centímetros. Muito afiado. Dizia que havia matado tigres com ele quando esteve na Ásia. Era verdade.

Han, Zhang, Zhongli, Cao e He sorriram novamente. Shaohao olhou para Zhongli e deu um grito marcial. O adversário de meu pai havia sido escolhido. Uma única espada curva, de monge Shaolim, foi a arma escolhida por ele.

Treze metros os separavam. O círculo de combate não era limpo. Haviam pedras pelo caminho que podiam ser usadas como armas, obstáculos, patamares. Artifícios, distrações.
Correram um em direção ao outro. O chinês venceu rapidamente sua parte da distância colocando primeiro o pé em uma pedra mais elevada. Quando ia dar mais um passo para outra pedra. Meu pai invertendo o Katar livrou seus dedos que junto com a outra mão agarraram o pé direito do chinês rodando-o no ar. Atirando Zhongli ao solo duro, fazendo com que a cabeça dele batesse contra uma pedra uns oitenta quilos que explodiu com o impacto. Nunca tinha visto alguém ser tão rápido assim. Nem investida mais brutal. Tampouco a exemplar recuperação chinesa. O oriental rolou pelo solo pedregoso como uma bola pondo-se de pé num salto bem longe de papai. A lateral direita da cabeça ferida. Olho vazado. O china sorriu focado e cheio de maldade no olhar adulterado. Meu pai aproximou-se novamente correndo forte. Socou com o Kata. Zhongli defendeu-se facilmente com a meia lua da escapa curva, e respondeu com um golpe frontal que acabaria na coxa direita do pai se ele não tivesse invadido a guarda do chinês. Papai rodopiou para longe de seu alcance, recebendo apenas uma pernada nas costas que o fez voar longe. Durante esta projeção o china arremessou a espada curva que errou a cabeça do meu velho por um milésimo de centímetro, fixando-se numa parede rochosa onde meu Papi bateu e grudou como uma estrela marinha em um vidro de aquário. Mamãe sorriu. Meu pai era um palhaço. Aquilo estava irritando o chinês com certeza. Girando para o lado esquerdo papai firmou os pés no chão enquanto Zhongli já estava lá retirando sua espada curva cravada do paredão, e atacava novamente. Meu velho baixinho, desviava os golpes com a lateral do Katar e respondia girando em contra-ataques velozes demais para que meus olhos acompanhassem todos. Uma vez o gancho da espada curva fisgou a linha metálica horizontal do Katar. Meu pai com braço forte puxou Zhongli a seu encontro desferindo um potente chute lateral na altura do umbigo do china. Este choque fez o Chinaman perder o fôlego e arregalar os olhos de espanto, desencaixando as armas; arremessando-o longe. Mais uma vez o chinês usou técnica de rolamento. Meu pai foi logo atrás; buscando-o com a ponta de sua Katar longa dupla.
Katar já perfurava armaduras milênios antes de nascermos. Para ela, atravessar coletes a prova de bala; era uma brincadeira. Quando Zhongli conseguiu levantar-se tinha furos nas pernas, nas costas e na nuca. Mas mesmo assim levantou-se. Furioso, o chinês arrancou do chão uma pedra de cem quilos e atirou-a na direção do velho, que saltou de lado e correu de encontro ao asiático. Chinaman parecia abatido, bêbado. Meu pai sempre foi um homem confiante. Acreditou que aquela era a hora de deitar Zhongli por terra de uma vez por todas. E frente ao ataque certeiro de papai, o Chinaman; num movimento de serpente para trás desviou-se do golpe fatal, enfiando a ponta da espada curva na altura dos rins do meu velho que respondeu. Cravou a Katar no olho bom dele, num movimento pouco ortodoxo de cima para baixo, onde a palma de suas mãos abertas apenas empurraram a lâmina para baixo em direção do olho, palato superior fixo, palato inferior móvel. A ponta do Katar apareceu próximo ao queixo na lateral do rosto do Chinaman. Que recusava-se a cair. Caolho acertou o joelho de papai com a espada curva, mas papai usava grevas metálicas nos joelhos e canela. O velho afastou-se cinquenta centímetros e soltou um giro de pernas. A sola de sua sandália romana explodiu contra o rosto castigado de Zhongli, que rachou esmagado sob a força potente do impacto. Chinaman foi ao chão. Não mais levantou-se.

Meus irmãos gritaram:

- Ele venceu! Papai venceu! Estamos salvos!

Eu calei. Tinha entendido o acordo. Meu pai não pensou nele, nem por um segundo. Ele não sairia vivo daquele círculo.
Cao saltou dentro do anel de luta. Foi direto ao rim ferido do velho que, recebeu uma bastonada de matar no local. Demonstrou não sentir dor. Na verdade, ele apenas desligou estas sensações. Era um homem de disciplina exemplar, que sabia controlar sua mente como ninguém. Cao lutava com bastão de carvalho com luvas de ferro. Meu pai defendia-se com as grevas e Katar. Seus braços sofriam com o impacto do bastão. Cao veio girando-o a grande velocidade. Sua arma foi travada pelo Katar que soube bem o tempo de giro do bastão. O velho, entrou na guarda de Cao, enfiando a lâmina dupla fundo em seus pulmões de baixo para cima. A ponta entrando na altura do estômago. Contudo, Cao não caiu. Moveu-se para trás e desceu o bastão com força na cabeça do velho. O impacto da pancada o fez saltar para cima de um jeito ridículo, jogar a cabeça para trás e cair de costas no chão. Cao pulou sobre ele, como uma aranha. Pernas abertas, bastão no meio, seguro por ambas as mãos. Ele queria cravar o velho no chão. E cravou. Fundo. Não sei como aquele bastão, conseguiu penetrar um metro e cinqüenta centímetros dentro daquele chão duro. Mas, este excesso teve um preço para Cao. Quando chegou perto o suficiente, meu velho sem ver muito bem, fincou a parte invertida do Katar em forma de dois punhos no ventre cortado de Cao. Quando meu pai retirou sua mão lá de dentro, ela saiu com os pulmões do Chinaman. Impressionante. Cao teria gritado indignado, se ainda tivesse seu fole. Não teve outra escolha, caiu de cara na lama.

Mamãe entrou na roda. Fechou os olhos do companheiro protegendo-os do sereno. Passou de leve a mão no rosto do marido pela última vez. Dirigiu-se ao centro do círculo. Desenhou no ar alguns movimentos de força. De algum lugar escondido na cintura, sua mão esquerda produziu uma clava de Jade. Com quarenta e cinco centímetros de comprimento, feita de uma pedra de jade verde especial sem veios; formava uma estrutura coesa. Pesava impressionantes cinco quilos e quatrocentas gramas. Um fuzil carregado, não pesa tudo isto. Testada muitas vezes em combate, provou-se resistente a todo tipo de enfrentamento. Ela usava grevas de aço do calcanhar, até a coxa. Grevas articuladas nos braços e ante-braços idem. Uma extensão, unia as grevas superiores ao ombro; formando uma proteção em torno da nuca, por onde o cabelo louro espalhava-se; ondulando selvagem, sujeito ao forte sopro do vento norte. Garoa ia e vinha intermitente. Farejei leve aroma de terra molhada, sangue, lama e vísceras. Nuvens baixas, contorciam-se sobre nossas cabeças por toda a extensão do platô; formando belos e estranhos desenhos circulares no ar. Minha mente interpretava tais projeções do jeito que queria. Hora carrancas, outra cavalos, por vezes dragões e palavras arcanas; assim como figuras geométricas. Para mim, eram de origem extraterrena.

Han, Zhang e He; não sorriam mais. O abutre vomitou novo comando marcial em Mandarim, depois em Mongol. Han apresentou-se dando passo a frente. Olhou ao redor. Deu um profundo suspiro. Girou os ombros largos. Colou a testa nos joelhos. Para não sujar as roupas, tocou o chão com a ponta dos dois dedos indicadores. Seu corpo ficou suspenso no ar equilibrado naqueles dois dedos. Han afastou as pernas com um movimento lateral. Elas abriram-se cento e oitenta graus; até ficarem paralelas a linha do horizonte cinzento. Fazia muito tempo, que ele não usava aquele corpo daquela forma. Entendi isto. Depois, com um movimento anti-natural muito desarticulado que fez seu tórax parecer estender-se para o alto enrolando a coluna para frente; suas pernas ultrapassaram a linha dos ombros e com a ponta dos pés avançando a diante; tocou o chão com eles. Concluiu a contorção; e logo estava em posição ereta novamente. Das costas, fez surgir um sabre de tai-chi chinês. Também mão esquerda.

Han carregou sobre ela como um búfalo e desceu a porrada. Ela por sua vez; foi hábil em movimentos de esquiva. Tórax para frente, para trás, saltos. Suas grevas de braços e pernas trabalhavam eficientemente travando o sabre do terceiro Chinaman. A balança parecia pender para o lado de Han que gritou para ela:
- Vaca loura vai morrer. Vai morrer logo-logo. Bem devagar.
Ela arregalou os olhos de surpresa. Não estava acostumada a ser tratada assim de forma alguma. Num amplo movimento giratório de esquiva, como um pião; afastou-se o suficiente de Han para correr dele. Correu uns três metros ao longo da parede de uma pedra comprida. Han a caçou. Parecia um lobo atrás da presa. Mamãe, encaixou o pé esquerdo em uma saliência enquanto corria saltando alto. Han a seguiu erguendo a espada para trás. Um erro. A vaca loira, girou no ar ficando de frente para seu oponente. Enquanto suas pernas esticadas iam para cima, a parte superior do corpo dela ia para baixo em movimento contrario. Um golpe de mestre inesquecível. O ponto de impacto, deste movimento articulado com a peça de jade, foi na cabeça dele. A providência, foi estar usando um elmo leve. O potente porrete resvalou pela superfície lisa do elmo e foi afundar-se entre o ombro e pescoço de Han. A arma pesada, afundou na carne do Chinaman; esmigalhando clavícula e costelas superiores da caixa torácica comprometendo o funcionamento pulmonar. Han foi lançado de modo violentíssimo contra o solo. O som foi inesquecível.

“Sklink! Craacrack! Splashbackcrack!”

Vaca Gorda, pousou no chão com suavidade de frente para a cabeça do adversário caído a seus pés e se Han fosse um homem comum teria fica lá prostrado no chão. Contorcer-se-ia, molemente; tomado por alucinante dor pungente lancinante sem conseguir tomar ar. Infelizmente para vaca gorda; Han era fora do comum. Anulando completamente o sofrimento em seu cérebro; adaptou o corpo lesionado numa nova modalidade de luta deformada. Movimentava-se de forma anômala, monstruosa, antinatural. Fascinante. Seus golpes em nada perderam a potência graças a seu poder de adaptação e o combate prosseguiu. Han surpreendeu mamãe, com uma nova e espantosa técnica de defesa usando as pernas. Saltava lateralmente de cabeça no chão, usando o lado esmagado pescoço-clavícula como base de onde lançava potentes contra golpes na região da oitava e nona costelas onde fica o baço e próximo a lombar 1 e 2 castigando minha amada.
A hora de minha mãe chegou desapercebida para ela; quando Han sofreu um afundamento de ombro para dentro do tórax em um de seus saltos. Segurava o sabre na mão direita que sabia menos que a esquerda inutilizada por culpa do golpe que recebera.
Nesta queda o Chinaman imperceptivelmente jogou o sabre para a mão esquerda. Vaca Gorda saltou sobre Han para desferir o golpe fatal. O sabre, como se tivesse vida própria; foi junto com a mão esquerda, o ombro afundado desafundou-se por si só, graças a uma força muscular que eu desconhecia; trabalhando como se o braço fosse um chicote flácido, um dedo abaixo do umbigo de minha mãe. Região onde passa grande quantidade de sangue. Corte de sua arma estava virado para cima numa pegada invertida. Esventrou-a imediatamente. Ela por sua vez; esmigalhou a cabeça de Han que mergulhou para dentro de seu peito com capacete e tudo. Lembrou-me um caranguejo com uma garra maior que a outra.
Agora, haviam cinco corpos caídos pelo chão. Ninguém se levantou. Depois de golpes fatais como estes nada levanta mais.

Meu irmão mais velho segundo e, minha segunda irmã mais nova entraram no ring.


 7
A menina, usava grevas protetoras nas pernas e braços, elmo leve brilhante de bronze polido. Bem armada ela estava. Nunchaku médio de ferro e uma besta de mão. Meu irmão, usava sua arma preferida. Tridente, escudo e uma faca de arremesso.

Minha irmã era de porte pequeno, leve, veloz e resistente. Uma menina forte, que calçava sandálias leves de corda. Meu irmão era mais alto do que eu, mais forte que eu. Puro instinto. Não era esguio e flexível como eu. Era denso como papai, mas como era jovem, era tão forte quanto; com a vantagem de ser mais leve. consequentemente, por causa do treino; era veloz como uma serpente. Mesmo que seu corpo não tendesse a isto. Um adversário admirável. Admirável.

“Será o primeiro a morrer.” – Pensei desgostoso.

A garota, correu como um raio; buscando o ponto de partida mais alto. De lá, poderia dominar com o olhar; os primeiros movimentos do combate. Esperta. Meu mano, correu para uma elevação menos elevada próxima a irmã. A menina o defenderia e para chegarem a ela; teriam que passar por ele. Agachou-se sobre da pedra como um macaco. Abriu os braços, segurando o tridente com um e o escudo fixo no antebraço do outro. Sorriu um sorriso feroz; com a faca de arremesso entre os dentes. Ele realmente era muito perigoso. Mesmo.

Na face de Zhang e He, não havia mais nem sombra de sorriso. Eles achavam, que este seria apenas mais um julgamento fácil. Onde a decisão sempre pende para o mais forte. Mas no meu caso e da minha família, os mais fracos se prepararam. Os mais fracos tornaram-se fortes. Dispostos a sacrificarem tudo em nome não de uma vitória, e sim da verdadeira constatação que, caso o acordo estabelecido não fosse respeitado. Certamente haveria represálias. Custo alto. De fato pois, meus dois irmãos que fugiram a cavalo; eram os melhores de nós. Melhores lutadores. Melhores estrategistas. Melhores em tudo. Tudo. E agora, o inimigo estava enfraquecido. Bem enfraquecido. Olhei de relance, o bestial caminhão de carga chinês. Era uma máquina especial sem dúvida, pois chegou até o alto da corcunda. Por um instante, perguntei-me qual seria sua carga e se quando me levassem; pois eles iam certamente, se haveriam armadilhas ao longo da estrada.

Chuva de Shuriken sobre meus irmãos, abriu a peleja deles contra Zhang e He. Dois velhos lobos guerreiros experimentados, contra dois jovens que nunca haviam matado nada, que não pudessem comer. Verdade. Defenderam-se magnificamente bem. É preciso muita fibra. Não se pode fechar os olhos. Não se pode perder a concentração ou foco. Um milésimo de segundo de vacilo, te coloca fora do fluxo e perde-se o ritmo. Você não deve sair de sincronia nem mesmo com Shuriken cravado numa perna, braço ou olho. Estas estrelas da morte, podem ser lançadas em unidades, duplas e grupo de três. Três estrelas é o máximo simultaneamente. Em cada mão. Três estrelas em cada mão. Dois lançadores. Quatro braços, quatro mãos. Faça as contas. Em um minuto, uma única mão de um guerreiro treinado lança três a cada sete ou oito segundos. Faça as contas. Meus irmãos não expuseram-se a chuva Shuriken completa. Apenas uns quarenta segundos de arremessos. Suas proteções metálicas repelindo com precisão estrelas da morte. Desviando-se velozes de pontas afiadas que por milímetros erravam o alvo uma apos a outra. Movimentos defensivos magistralmente coordenados. Protegeram-se atrás das pedras. Recolheram as estrelas que encontraram. Guardaram com eles. Não foram feridos. Habilidade não é tudo. Até hoje, quando vejo alguém superar as leis da probabilidade encarando de frente um desafio; vem duas ou três palavras em minha mente. Não as digo em voz alta. Determinação, coragem e sorte. Muita, muita sorte. Não tem jeito. É assim. Quem não corre riscos, não paga para ver. Fecha os olhos; falha com a vida. É atingido por forças invisíveis. Morre em vão. Não é isto que se espera de nós.

Meus irmãos eram estrategistas. Meu Brow, quanto atirou-se para trás da pedra; caiu simulando ter sido ferido. Soltou o ar dos pulmões e gemeu baixinho. Isto foi tudo que seus adversários precisavam. Não foram em sua direção. Contornaram a posição onde ele guardava a frente da minha irmã. Iam ataca-la pelos flancos. Quando deram a volta na pedra ela não estava lá. Encontraram meu irmão, que lhes devolveu alguns de seus Shurikens. E quando ele recuou para sua posição anterior, a pedra menor; Foram alvejados pela besta de mão, pela faca de arremesso e por mais Shurikens. Aí, os garotos correram para o outro extremo do ring. Zhang e He foram atrás deles. Pareciam porcos espinhos, mancando, gemendo e grasnando; de tantas estrelas nos braços, pernas. Infelizmente, a maior parte; parou nos coletes Bullet Proof. Ambos usavam espadas longas. Belas e brilhantes damas Japonesas. Beijo doce arrepio que precede a agonia da morte; elas tem para dar. Ah sim. Isto elas tem para dar.


8

Minha irmã colou-se as costas de meu irmão quando Zhang e He iniciaram ataque frontal direto contra ele. Moviam-se como se fossem um. Colados. Ele brandiu seu tridente a esquerda e a direita bloqueando golpes de espada. Avançou sobre o guerreiro que estava mais próximo dando as costas ao que estava um passo mais distante. Na fração de segundo que levou este movimento onde era para meu irmão estar desguarnecido lá estava minha irmã que acertou um tiro certeiro de besta de mão na garganta de He. Assim que conquistou esta vantagem; descolou-se de meu irmão e partiu para cima do guerreiro ferido com seus nunchaku de ferro. Lindo ver ela dançar. Com seus passos leves, velocidade felina esquivava-se de golpes horizontais e verticais efetuados pelo atacante chinaman Zhang e audaz furava as guardas do inimigo demolindo-o mais ainda com pancadas potentes de sua arma.
A resistência física dos adversários da minha família aproximavam-se do sobre-humano. Zhang estava quase moído, quando conseguiu machucar de verdade minha mana. Um inimigo resistente é um problema a parte. Pior que inimigos habilidosos por vezes. Um guerreiro habilidoso pode ser abatido por um golpe sutil se dermos sorte. Já um resistente não. O chinaman deu um passo para trás. A ponta de sua lâmina na direção oposta do abdômen de minha mana. Ela caiu dentro. O cabo da espada do china atingiu o rosto dela partindo o nariz e afastou-se. Depois, em vez do cabo, veio a lâmina querendo abrir a cabeça dela. Ela desviou-se. Acabou sendo ferida profundamente no ombro. Se ela não fosse quem era; estaria partida ao meio sobre as pedras da corcunda. Ninguém alí estava brincando. Num último movimento desesperado ela sacou a besta de mão presa nas costas. Olhou para meu irmão a tempo de vê-lo cravar seu tridente no coração de He. Seu irmão estava morto. Matava seu inimigo com a espada do mesmo atravessada no pescoço. Isto, em vez de desestimula-la; pareceu redobrar suas forças. E assim, ela obteve êxito derrubando Zhang com um tiro perfeito de besta de mão que entrou pelo orifício nasal esquerdo do china e despontou no topo da cabeça com pedaços de cérebro. Em silêncio, minha irmã partiu corcunda abaixo levando nada a não ser si própria e um ferimento profundo. Havia curativos na Kombi eu sabia. Ela tinha a chave.

Os combates terminaram. Shaohao desafiou-me. Eu lhe disse que aceitaria o desafio. Mas não naquele dia. Reservei-me o direito de escolher data e hora. Ele acatou mas, até que este dia chegasse; seria seu prisioneiro na China; já que não me podia matar ou julgar. Respondi a ele:
– Isto, quando chegamos a ela. Até lá é um longo caminho. Por enquanto prefiro me imaginar como um convidado.

Shaohao gritou com seus mortos:
– O julgamento acabou! Levantem-se.

Os cadáveres de Han, Zhang, Zhongli, Cao e He começaram a estremecer.

Shaohao sorriu matreiro. Latiu:
– Vocês três também. Suas almas são minhas assim decidiu o combate.
Os cadáveres de meu pai, mãe e irmão; começaram a estremecer.




Fim


Como sempre, dedico a Lumyah e Raphael meus queridos.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Namoro, Namorados & Promessas de Morte






Por: gu1le



Para Lumyah M. M. e Raphael M. M.





 

Apresentação
Tendo algo para amar o homem ama. Acima de tudo.
O homem alimenta-se daquilo que ama e é capaz de enamorar-se de qualquer coisa.


gu1le

 

****

Introdução
 
Não sei quem é Harker. Nem mesmo sei se ele está vivo. Não faço idéia do que aconteceu a ele ou a seu grupo de amigos. Foi por mero acaso, que acabei ficando a par desta história. Faço parte de um grupo de pesquisadores de cavernas. Sou um Espeleologista. Meu lance é geografia, geologia, biologia e química, não pessoas. Então eu não sei ok? Só estou escrevendo sobre isto, por ter encontrado as coisas que encontrei; em mochilas no fundo desta caverna. A mais profunda de todas as cavernas. As coisas, parecem ter sido deixadas aqui faz pouco tempo. Livros, diários, antigas fotos desbotadas de Polaroid, caixinhas elétricas para se falar com outras pessoas, caixinhas para se gravar o movimento das coisas do mundo. Quadradinhos elétricos luminosos que guardam imagens, vídeos, livros, vozes e musicas.

Acho que este sujeito Harker, tinha bons motivos para agradecer a vida, se você quiser saber. Mas como sucede quase sempre, não me pergunte por que, acabamos sendo mal agradecidos quando coisas boas, mas simples acontecem conosco. Daqui a algumas horas nossa investigação termina e levarei se puder; toda esta informação incrustada nestes aparelhinhos e manuscritos para as autoridades. Mas enquanto o resto do meu grupo, que agora virou grupo de busca; não retorna aquí para a base, continuarei escrevendo, pois acho que o que descobri não é bom e pouco a pouco, estou ficando com um bocado de medo, pois; este inóspito ponto cavernoso transmite sentimentos negativos profundos. Aqui é frio, desolado e muito silencioso. Nós profissionais treinados, meio alpinistas, meio mergulhadores e loucos destemidos; demoramos oito horas para chegar até aqui usando equipamentos de primeira linha. Imaginem eles. O que aconteceu a estas pessoas? Como vieram parar aqui? Vieram?


 
1

O legado do avião no céu foi uma trilha de condensação gerado no vértice de suas asas e turbinas, que rasgaram a atmosfera. Ele testemunhou a isto enquanto o sol se punha e uma chuva aproximava-se. Estava exercendo seu direito liquido e certo de viver. O observador era Harker. Do alto de seus vinte e dois anos, ele refletia e via de modo crítico tudo que lhe passava pela frente.

 

“Ninguém vai construir os caminhos por onde terei de seguir se não eu mesmo.”
 

Os carros rugiam; enquanto caminhava por uma longa calçada cinza margeada por grama seca.
“Não deveria ter lido Nietzsche.”

E via trovejantes nuvens furiosas movendo-se ao sabor do vento forte. As primeiras luzes elétricas dos postes começavam a pulsar devagar.

“Qual é minha trajetória? Para onde vou nesta cidade sem graça?”

E ouvia música a alta que brotava de seus fones de ouvido, mas não silenciava a inquietação de sua mente.

“Quando é que o mundo vai fazer sentido para mim? Já acabei o ensino médio faz tanto tempo... Não faço sexo faz mais de quinze dias. Estou desempregado. Não acredito em nada.”

E passava as mãos pelos cabelos molhados.

“Não deveria ter lido Descartes.”

Vagará a pé pela noite mais uma vez até ficar exausto. Talvez a tarde antes de sair ás ruas; foi despertado por um sonho enigmático. Estava num parque aquático, onde a água retinha a memória das coisas. O chão embaixo desta água pulsava como se fosse um coração de barro vermelho. Acordou sufocando engasgado, em seu pequeno quarto na casa dos pais. Culpa da refeição pesada que fizera antes de deitar-se. Tentou puxar ar para dentro de si, mas as vias aéreas estavam entupidas. Um arroto desesperado, vindo do fundo dos pulmões, não do estômago; acabou desentupindo-o salvando-lhe a vida.

Como eu estava dizendo, Harker não sabia como tudo ao redor era bom. Era luz. Nascera em uma terra abençoada. As estações obedeciam à regra dos quatro ciclos. Outono, inverno, primavera, verão. Havia animais de todos os tipos pela região. Domesticados e selvagens. Tinha também florestas. Rios com muitos peixes. Pequenas cidades e cidadelas onde homens e mulheres viviam embalados pelo riso de suas crianças. Havia uma montanha alta e um grande deserto. Tinha também profundas cavernas, onde as pessoas iam celebrar. Jovens andavam de bicicletas, carros, desfrutavam de tecnologias. Mas, não é por isto que esta terra era bem dita. Estas qualidades por si só não constituem base excelente. A maior bênção, estava nas coisas que aquele lugar não possuía. Na região, não havia jazidas de ferro nem carvão. Não havia ouro nem nos rios, nem nos paredões da montanha. Nunca se achou um diamante sequer naquele chão. Lá nunca se encontrou evidência de sangue negro, nem gás natural. Só havia longas faixas de terra fértil e quem quisesse ser bem sucedido por ali; só o seria colhendo. Para colher, tem que se plantar e todos sabem que isto não acontece sem trabalho. Muito trabalho. Então o dom da terra daquela região, era despertar em suas criaturas, as melhores qualidades humanas; já que não havia motivo para que sentimentos nocivos fossem de muita valia por lá. Uma terra sem riquezas naturais em demasia é assim. Divina. Mas homens são homens e às vezes gente não é gente; e até nesta terra aconteciam coisas ruins claro, mas havia mais luz do que negridão. 


Harker nada disto percebia.

Via a chuva fina que caia. Andava no começo da noite vestindo uma jaqueta jeans molhada. Observava luzes amareladas das janelas de altos e compridos prédios de apartamento. Pensou que se assemelhavam a olhos. Sim. As aberturas das janelas dos prédios pareciam olhos. Alguns cegos e apagados. Alguns iluminados. Todos sem pupilas. Olhando mais além enquanto descia a rua vazia; enxergou também os intestinos dos edifícios. Ficavam nas costas dos prédios ou em suas laterais. Destes encanamentos robustos, descia imundícies e água gordurosa.

Harker murmurou de si, para si mesmo (gravação de celular):

–Preciso aprender a ser feliz com coisas simples para não viver frustrado até o fim da vida. O importante é estar vivo. O importante é sobreviver. Depois vem a trajetória. Sobreviver é a trajetória. Este é o mandato de segurança que a vida expediu. Não cumpri-lo é loucura. Mas muitas pessoas assim o fazem. Está decidido. Vou avisar lá em casa que vou para o retiro. Não dá mais para fugir. Cumpriremos nossas promessas. Bem no dia dos namorados como imaginamos que poderia ser.

Resoluto seguiu andando. Um pé na frente do outro, contemplando o turvo reflexo urbano do céu noturno nas poças d'água; daquela cidade.


2
Em todo lugar no mundo, existe espaços propícios a desastres, catástrofes e até monstros. Para certos animais, o abandono de seu ambiente é morte certa. Como macaquinhos inocentes que ousam descer da árvore e tocar o chão, apenas para serem imediatamente devorados por predadores. Assim são as pessoas às vezes. Não tem necessidade de fazer certas coisas arriscadas, mas fazem. O porquê? Quem é que vai saber?
Desta forma aconteceu com o menino Arlington. Ele viveu na nossa cidade há muito tempo atrás. Era como eu e você que, está aqui escutando esta história ao redor da fogueira na beira das cavernas; nesta noite enluarada – Dizia Amber para a garotada de olhos arregalados que estava no retiro – Como nós, o menino Arlington também adorava aventuras. Mas por mais que sua família o advertisse; este menino sempre repetia um erro. Qual seria este erro?
- Arlington saia em suas aventuras sozinho? - Murmura um dos jovens.
- Sim Dennis! - Diz Amber de vinte e dois anos, dando um gritinho de alegria abraçando o jovenzinho de doze anos contra seus seios fartos. Agora, infelizmente tenho que lhes contar à tragédia que aconteceu a Arlington bem aqui nestas cavernas; quando ele resolveu ir além das áreas permitidas...

Observando a cena, escondido atrás de um arbusto, Harker sorria por trás de uma máscara de lobisomem. Foi uma ótima idéia ter se voluntariado para ser monitor das crianças e pré-adolescentes. Retornar à amigas e amigos antigos de longa data, que como ele; anos atrás levaram um baita susto quando um lobisomem de meia-tigela pulou de trás dos arbustos também. Mas o melhor, era poder estar novamente perto de Amber sua ex e, ao mesmo tempo; desfrutar a natureza. Prados enfeitados de Girassóis, Amarílis, Açafrão e plantas felpudas; recortado por riachos a beira das cavernas ancestrais. Morada de homens desde o início da humanidade.
Quem diria? Pensava Harker. Hoje é dia dos namorados. Quem sabe mais tarde após os novinhos dormirem, nós possamos conversar. Viver é uma coisa surpreendente. Não sabia que estava com tantas saudades de todas estas pessoas e lugares; depois de tudo que passamos.

Os monitores encerraram suas atividades, acalentando e botando pra dormir em sleepingbags vinte e cinco adolescentes meninas em uma caverna; guardados pela monitora mais azarada. E trinta jovens meninos inquietos em outra caverna com o monitor mais sem sorte. O resto da equipe, foi caminhando cansada para os alojamentos construídos no prado próximo a elas.

Após lavarem-se e comerem, ligaram uma velha vitrola e botaram para tocar um disco de vinil da banda de rock que lhes marcou a adolescência. Ficaram a conversar um pouco nas varandas olhando estrelas, banhados pelo luar enquanto uma brisa suave encapelava as nuvens no céu. Beberam vinho e olharam intrigados uns nos olhos dos outros, num silêncio constrangido. Harker filmou um pouco usando a câmera de Lisa. Todos os seus amigos de infância estavam ali. Amber com sua beleza germânica. Jeff alto, magro, veloz e bem apessoado com seus cabelos cacheados castanho-claro. Lisa gordinha elétrica de cabelos azuis; com sua alegria contagiante. Ester uma beldade latina, tranqüila e faceira de sorriso austero, algumas vezes cruel. William de ombros largos, corpo de nadador olímpico e Harker. Muito forte. Um halterofilista nato. O motivo de estarem constrangidos? Bem não sei como explicar direito. O que podemos dizer a respeito de sentimentos de outras pessoas? Já é um bocado difícil, saber o que sentimos. Mas se fosse arriscar dizer algo sobre; diria que era por que todos eles eram ex. Todos eram ex-namorados. Se conheciam desde a infância, devem ter aprontado muito e feito muita coisa. Todo mundo, de um jeito ou de outro faz assim, não é mesmo?

Iniciaram uma conversa leve que, pouco a pouco acabou virando um papo recheado por sorrisos e histórias de acontecimentos corriqueiros e engraçados que aconteceram em suas vidas desde o momento em que se separaram permeada sempre por acontecimentos passados.
Situações hilárias e algumas levemente constrangedoras que viveram juntos, quando eram uma turma de namorados vieram à tona. Esta foi a deixa.

- Espero que alguém se lembre do que combinamos tempos atrás - menciona Jeff dando um dissimulado olhar casual para o grupo de corações solitários, enquanto saboreava um copo de vinho tinto.

Amber, Lisa e Ester trocam olhares e dão sorrisinhos pequenos, enquanto William e Harker abrem largos sorrisos.

- Você está falando do quê Jeff? - Tenta desconversar Ester.
- Você sabe o que ele quer dizer Ester. Vamos lá. Facilita só desta vez. - Pede Lisa.

Harker levanta-se segurando uma das garrafas de vinho que estão sobre a mesa de centro das varandas pelo gargalo e comenta:

- Eu sinto o cheiro de flor. É cheiro de dama da noite. Vejo o céu estrelado e estou aqui com vocês. Muita coisa mudou e parece que eu não venci. Não me sinto um vencedor. Tenho andado caminhando sozinho pelas madrugadas sabiam? Vocês sabiam que a noite, nas praças e perto de feiras-livres existem pessoas que sobem em árvores e amarram-se nelas para dormir? Se dormirem no chão é bem provável que não vejam o outro dia. Podem ser estuprados, espancados ou roubados ou então; talvez apenas sejam presos pela policia por vadiagem. Spray de pimenta, bordoada, tortura, abuso cristalino e ilícito do poder. Existem pessoas que na madrugada, fazem bueiros e bocas de lobo entupidas de lar. Eles limpam bem limpinho estendem trapos por cima de lonas, colocam papelão por baixo das grades rente a calçada, isolando o máximo a entrada de baratas e dormem. Dormem pouco. Três, quatro horas, depois; antes de a cidade levantar removem tudo e deixam como estava antes; para a prefeitura não incomodar. Tem gente no mundo que age maliciosamente contra os ditames do ordenamento jurídico pátrio. O resultado? Nossas vidas por causa destas interferências; acabam sendo determinadas de acordo com interesses pessoais alheios a nossa vontade. Somos escravos. Nossas vidas pertencem a gente possuída pelo demônio, creio eu. - Dá um belo gole no vinho e continua - Eu não sei o que aconteceu com a gente. Sei que estamos nos transformando. Mudando. Nossos pensamentos, nossas atitudes são diferentes. Mas ao mesmo tempo, existe algo que nunca muda!

- A nossa amizade! - Dizem todos.

- Bebamos a ela! Bebamos a ela agora! Ainda estamos vivos! - Diz William e toma um pequeno golinho de seu copo de vinho.

- Bebamos por que não sabemos de onde viemos nem para onde vamos! - Acrescenta Amber, também molhando o bico.

- Bebamos porque a vida é breve e a única certeza é que noite eterna cai sobre todos os seres, fechando seus olhos! - Completa Lisa largando sua serrinha de unha sobre a mesa; bebendo também.

- Ok! Ok! Ta bom! Seus chatos! Bebamos por ainda estamos esperneando! Vocês são uns falsos. Não bebem e fingem ser grandes humanistas boêmios pilares do Iluminismo. Renascentistas de meia pataca. - Comenta Ester rindo e bebendo também no seu copo de vinho com os olhos marejados de lágrimas. - Onde estão os cartões do dia dos namorados que fizemos seus sacanas? Vamos a eles e depois, comecemos logo a procurar os presentes escondidos, que vocês já estão me dando nos nervos. Piegas.

- Nem tudo mudou - comenta Jeff irreverente - ainda calço sapatos tamanho quarenta e quatro, então eu ainda sou o maior garanhão deste retiro.

As meninas fazem caretas e arremessam bolinhas de papel em Jeff, que rindo se defende sem esforço.

Para mim parece que eles tinham um acordo. Tipo um pacto. Pode ser. Não sei dizer se foi bem um pacto. Não sei mesmo. Talvez, eles muito tempo atrás, tenham apenas vislumbrado a possibilidade de tempos difíceis acontecerem no futuro; e criado um plano B. Algo que os colocasse de volta nos trilhos caso se perdessem pelo caminho.


3
Eu não precisava estar escrevendo isto, mas estou. Poderia dizer que o faço por capricho, mas não seria verdade. Num piscar de olhos, certas prioridades podem mudar. Meus companheiros de expedição demoram-se a retornar a base. Sinto a falta de luz da caverna adensar-se cada vez mais ao meu redor; o que acho muito estranho. Fui o mais jovem espeleologista a investigar estas caves. Foi já faz tempo. Nunca havia sequer cogitado a possibilidade, de existirem coisas além da vida em um ambiente tão inóspito para seres humanos como aqui. Meu lado racional, afirma que estou rodeado de sedimentos espalhados ao acaso, pedras sem cheiro algum, que não seja cheiro de pedra e, água pura e fria a escorrer por elas. O nível dos morcegos, está quilômetros acima.
Sem muito pensar, montei minha barraca no centro de um círculo de estalagmites. Coloquei duas luzes em lados opostos da circunferência, no alto das duas estalagmites mais altas; iluminando completamente minha tenda. Eu estudo o caminho das águas nas pedras só isto. Mas pouco a pouco, outro mundo começa a descortinar-se diante de meus olhos; lançando-me neste ponto da minha vida onde agora estou e, que jamais seria capaz de imaginar que chegaria. Não vou dizer qual.


4
O velho pastor Johonnes chefe do retiro, aproximou-se sorridente do grupo de monitores acompanhado de Kassandra sua mulher e o antigo pastor Wilber; também com a esposa.

- Estávamos do outro lado das varandas e ouvimos os risos e toda esta alegria. Resolvemos vir avisar que seus presentes estão escondidos na caverna Catedral como vocês queriam e aqui estão os cartões lacrados que pediram que eu guardasse. - entrega os cartões a Jeff - Nossa como o tempo passa... Estou guardando eles há quase quatro anos. Fico feliz em testemunhar a possibilidade de vocês chegarem a um acordo, e resolverem voltar para os lugares a que pertencem fisicamente, racionalmente e emocionalmente. Não esqueçam, esta tudo no grande livro e vocês sabem. Ah, antes de voltarmos lá pro nosso grupo, peço que não acabem com meu estoque de vinho todo. Deixem ao menos, uma garrafa para mim.

Os jovens monitores agradecem, ligeiramente envergonhados e honrados por Johonnes lhes tratar como adultos, permitindo que fizessem o que bem entendessem. Mas como não eram mais crianças mesmo, isto não deveria ser de muito se admirar. Vou te dizer, eu não sou grande conhecedor de pessoas; creio que qualquer um pode deduzir isto, se levar em conta a profissão que escolhi, mas algo me diz; que esta história está muito mal contada. O que aconteceu depois da conversa com Johonnes, posso ver aqui em imagens. Estes brinquedinhos tem umas baterias poderosas.

Jeff entregou um a um os cartões para os respectivos destinatários. Eles ficaram ao redor da mesa, olhando uns para os outros sem dizer palavra; até que William rompeu com o silêncio.

- Vamos acabar logo com isto.
- Vocês acham que Johonnes percebeu alguma coisa? - questiona Lisa de celular na mão.
- Perceber o quê? - corta Ester irritada - Não há nada para ser percebido. Estamos diante da câmera. Vamos tentar nos portar bem, ok?
- O que eu não entendo, é como a idéia louca de Jeff deu certo.
- O que eu não entendo, é por que meu celular não está funcionando. Que chato! - Reclama Amber - Está todo grudento. Parece que a bateria está vazando droga!
- Amber se está vazando tome cuidado. - Explica Harker - Estes líquidos que saem de baterias velhas são nocivos para a saúde. Tem mercúrio, chumbo, cádmio que é o pior; além de manganês e níquel. Veneno puro.
- Blergh! - Amber atira o celular sobre a mesa.

Mais silêncio. Abriram seus cartões de dia dos namorados e leram separados uns dos outros. Não deu para ver o que estava escrito, mas pude notar que em cada um deles, havia uma foto antiga do jovenzinho ou da jovenzinha que eles foram outrora. Em cada cartão havia uma mensagem de amor, um pedido e uma promessa velada vinculada ao dito desejo. Levantaram-se e todos um por um, queimaram seus cartões usando a chama das velas sebosas do castiçal de prata que estava sobre a mesa, mas deixaram as fotos. Amber pegou todas e as guardou em sua mochila junto com discos de vinil e, cá estou eu nas profundezas com a mochila desta moça Amber; entre outras claro. Seis mochilas, seis caixas de presentes, seis desaparecidos. O que uma pessoa pode dizer de tudo isto? Eu não sei, não sei mesmo. Dizem que há séculos pelo menos a cada dois, três anos; uma pessoa some nestas cavernas. Mas não há registros de perdidos nos arquivos das cidades da região. Nunca ouvi falar em grupos de busca; envolvimento da guarda florestal em prol disto ou, algum familiar em desespero clamando por parentes. Não sou investigador, nem quero ser mas, se você quiser saber o que estou começando a pensar agora; lhe digo. Estou com uma pulga atrás da orelha. Se estes jovens, estavam servindo como monitores no retiro que acabou faz dois dias que eu sei; porque não voltaram com seu pessoal? Como é que não sentiram a falta deles? Haviam outras pessoas responsáveis. Pastores, esposas, motoristas, cozinheiros. Estes meninos certamente não tem o perfil de órfãos. Todos devem ter família. Bem, talvez eu esteja exagerando ao fazer estes questionamentos. Quase tudo neste mundo tem uma explicação lógica. Mas eu preciso questionar. Preciso entender o que aconteceu aqui. Ora, ninguém deixa de lado e abandona este tipo de coisas que encontrei nas mochilas; muito menos se deixa este tipo de gente para trás.


5
Na ânsia de decifrar o mistério, abri mão de tentar seguir o rastro dos monitores de modo linear. Talvez não seja correto o que estou fazendo. Metendo a mão em tudo. Deixando minhas digitais em objetos que, podem ou não vir a tornarem-se provas de algum crime perpetrado neste ermo. Pode ser que você não entenda meus motivos, mas eu acho que entende sim. No fundo qualquer um com olhos e cérebro percebe. Agora que me envolvi com esta história, me sinto diferente. Não passa por mim nenhum sentimento de júbilo. Não me sinto especial nem predestinado. Não me sinto mais vivo, nem mais esperto. Não sinto desejo de justiça, nem quero dar sentido às vidas destas pessoas reconstituindo o caminho que as trouxe até aqui. Nada disto. Acho que tenho de entender o que aconteceu, por que começo a me sentir atolado na merda. Atolado nela até o pescoço, se você quer mesmo saber. Isto aqui é um pepino do tamanho de um elefante africano e pode ser enfiado bem lá no meu rabo. Acho que já está entrando. Estou tenso, tão tenso. Parece que ouço o barulho de pisadas no breu, ao redor da base do acampamento no perímetro criado pelas luzes cravadas nas estalagmites. Se fossem os meus companheiros; já estariam aqui comigo. Jamais fariam este tipo de brincadeira. Nunca fizeram. Somos profissionais. Parece-me, que vejo o cintilar da iluminação nos olhos de alguma coisa impalpável, mas, de aspecto violento e selvagem imagino; pois esta representação vaga está sempre a cinco centímetros além no limiar da claridade. Este mistério não quer se revelar. Ou talvez, esteja apenas a brincar comigo. Talvez não seja nenhuma das hipóteses acima. Estarei enlouquecendo?

Meus piores medos se concretizaram. Abri uma mochila e nela encontrei instrumentos sujos de sangue. Achei um castiçal, brutalmente retorcido e ensangüentado. Peguei as maquininhas elétricas para ver o que os vídeos podiam dizer a respeito. Aí entendi que danou de vez.

Eles saíram tontos pelos campos, em direção a caverna alta chamada Catedral. Pareciam hipnotizados pelas vozes da pradaria. Levavam suas caixinhas com câmeras, algumas garrafas de vinho, lanternas e mochilas nas costas. William bebeu um copo de vinho oferecido por Lisa e disse que o vinho não lhe descia bem. Procuravam os tais presentes. Jeff ia fazendo seu caminho com o castiçal. Dividiram-se ao adentrarem a caverna. Todos filmando uns aos outros. Cada um seguiu sozinho por um túnel diferente. A extrema falta de luz, não permitia nada mais que uma pequena área de no máximo dois metros fosse captada pelas câmeras. O primeiro a cair eu acho que foi William.

William estava andando a passos largos pela caverna. Apesar da pouca claridade, parecia que conhecia bem aquele percurso. De repente, sua respiração começou a ficar entrecortada e ele parou um momento para respirar. Apoiou-se com a mão nas paredes da caverna. O celular lhe iluminava o rosto extremamente pálido, coberto por uma camada fina de suor, apesar de estas cavernas serem frias. Depois o celular vai de encontro à barriga e William geme. Acho que sente dores abdominais. Parecendo estar desnorteado, o rapaz começa a iluminar o trecho de caverna ao seu redor; como se temesse que algo o atingisse pelas costas. Segura a barriga outra vez eu acho. A imagem do celular escurece e naquela escuridão; ouço o primeiro grito de dor e sofrimento. William ajoelha-se e vomita copiosamente. O celular se torna rubro de vinho ou sangue não sei dizer. E entre engulhos e gemidos de dar dó ele grita:

–Lisaaaaaaa! Lisaaaaaaa! Nãooooooo! Eu te amooooooo! Por quê? Por quêeeeee?

William agora está espumando pela boca, espuma branca-rosa. Deita-se no chão gelado da caverna e filma o próprio rosto começando a ficar azulado.

–Foi Lisa eu sei! Se alguém achar este vídeo saiba que estou morto. Foi Lisa que me matou! Foi sim! Agora me lembro do que Harker falou lá na varanda. Arrgh! Lembro. Mercúrio, chumbo, cádmio que é o pior; além de manganês e níquel. Veneno puro. Por*a! Lisaaaa! Éramos apenas crianças Lisa! Você não podia ficar com aquele bebê!

Consigo ouvir um sussurro feminino na escuridão.

–Era meu e do meu amor. Você nada tinha a ver com isto.
–Mas te amo também! Te amo Lisa, onde você está?

De novo a escuridão responde:

–Maldito miserável, invejoso e fofoqueiro! O filho não era seu! Tenho nojo de você! Nojo! Eu nunca te amei! Agora morra. Morra! Sozinho nesta escuridão seu desgraçado! Você acabou com a minha vida!
–Você pode ter outros bebês! Me leve lá para fora, ainda dá tempo de chegarmos a um hospital. Johonnes saberá o que fazer!
–Não. Não posso. Fiz uma promessa. Após o aborto tive os ovários extraídos por causa de um tumor ano passado. Aquela era minha única chance.
–O teu dito amor não presta Lisa! Ele é um psicopata! Psi! Totalmente! Além disto, ele deseja outra pessoa e você sabe!
–Cale esta sua boca imunda seu imprestável falastrão! Se eu tivesse tido um filho dele, tudo teria sido diferente. Ele teria ficado comigo e seríamos felizes! Felizes!
–Lisa... Tola. Argh! Idiota! Kkkkkk... Você teria é ficado numa cova rasa perdida nas pradarias ou teria sido empurrada no abismo como...
–Cala esta merda desta bocaaaaaaaaa! Williaaaaam!

Lisa salta como uma fera sobre o moribundo, seus cabelos parecendo raios néon. Segura uma jarra transparente de plástico, com um líquido semitransparente meio verde e cobalto. No fundo desta jarra, a bateria do celular de Amber. Beba este sucozinho aqui meu amor. Segura o moço intoxicado já enfraquecido pelo veneno que estava no copo de vinho pelos cabelos e, o força a beber mais do mesmo agora na garrafa de plástico. Ele cospe, xinga se retorce, tenta arranhar a garota, arregala os olhos, implora, geme e grita como um possuído e entra em estado de choque. Estremece, para de respirar e morre do jeito que Lisa mandou.

Talvez, você como eu deva estar se perguntando:

“E os outros, por que não foram socorrer o menino William?”

Me pergunte. Me pergunte e eu lhe respondo, pois agora eu sei. Não fizeram nada em benefício do rapaz, por estarem muito, mas muito ocupados mesmo.

A última coisa que percebi de Lisa graças à câmera dela, foi que enquanto ela cavava o chão ao lado do cadáver de William e retirava uma caixa de presentes surrada cheia de ossos; é um estranho dialogo. Ela estava conversando com algo fundido a escuridão. Não escutei com quem ela falou, mas, ouvi o que ela respondeu.

–Ta bom. Vou levar ele pra você. Em pedaços? Sim ou não? Para mim tanto faz. Eu arrasto ele até a beira do abismo sim. Faço qualquer coisa. Vou mesmo conseguir ter outro filho? Você vai me deixar em paz? Eu não queria que nada disto tivesse acontecido. Éramos apenas criancinhas, você sabe. Tivemos medo.

O que estava nas sombras, pareceu estalar a língua algumas vezes e ciciar.

Harker estava sobre um patamar que permitiria, se houvesse luz suficiente; a vista de toda a abobada natural da caverna Catedral. Mas como isto não era possível, ele dirigiu o facho de luz concentrado de uma lanterna que, conseguia iluminar pequenas áreas até cem metros para o alto. Quando a luz branca acertou a abobada da caverna, cristais hexagonais aflorando das rochas decompuseram-na. Cores do arco-íris que projetaram-se em todas as direções. Talvez por causa desta beleza sem igual; o moço não percebeu que um velado inimigo seu aproximava-se pela retaguarda.
Imagino que Harker pensava se teria coragem de dar o presente do dia dos namorados exigido no seu cartão; quando foi golpeado na cabeça covardemente por algo pesado.
Como disse antes, este indivíduo tinha o físico de um gorila, um armário de cabeça dura. Crânio grosso como o de um Homem de Neanderthal. Por isto, em vez de desmaiar e despencar lá para baixo girou entontecido em torno de si mesmo ficando de frente para seu oponente e neste giro; mandou o braço varrendo o tudo que estava em seu raio de ação. Ele viu Jeff ser lançado para trás, batendo forte as costas contra a parede da caverna que, estava ao lado das escadas que levavam ao patamar.

- Jeff? Jeff?! Que foi isto? O que aconteceu? Você se machucou? - Harker perguntou aflito, enquanto sangue escorria do alto de sua cabeça pelas orelhas e pescoço, molhando a camiseta.

Jeff levanta-se do chão com velocidade felina e atinge mais uma vez Harker na cabeça com o castiçal. O fortão fica meio abobalhado, mas, não ajoelha-se nem desmaia. Aí então, Harker entende tudo de uma vez só; ao ver o castiçal já com seus suportes para vela começando a ficarem retorcidos. Um jato de adrenalina furiosa é lançado em sua corrente sanguínea. Agora chegou à hora de Jeff arregalar os olhos. Parece que desta vez, ele mexeu com a pessoa errada. Está fodido eu acho. Harker se atraca com ele que é alto; porém não tem a massa muscular do andarilho. Jeff é brutalmente golpeado no rosto pelas costas da mão direita do Harker, enquanto a esquerda arranca o castiçal da mão direita de Jeff. Com o sangue escorrendo pelas laterais do rosto, assim como pelo meio da cara lavando o nariz e entrando na boca, Harker segura amigo-da-onça pelo pescoço e grita; cuspindo uma chuva pesada de perdigotos, saliva e sangue em sua cara apavorada.

- Meu irmão; você não sabe o quanto você está me facilitando à vida! Sempre me disseram que você não era meu amigo, mas, eu não queria acreditar. Eu pensava; se um dia você ia me dar motivo. Eu pensava: “ Deus faça o Jeff me dar um motivo para crer que ele não é meu amigo, brother e camarada para eu poder surrá-lo até ele se borrar todo! “ - Mas Deus é maravilhoso! Neste dia dos namorados, depois da abertura dos cartões e com você fazendo o que fez; fui abençoado pelo direito de matá-lo! Kkkkkkkkk... Ahu!-Ahu-ahu-ahu-ahuahua!

O primeiro golpe de Harker em Jeff enquanto o segurava pelo pescoço, foi de cima para baixo na lateral da cabeça e, deixou a orelha direita dele pendurada apenas por um fiapo de carne. O segundo golpe, também de cima para baixo foi no meio da cara. Quebrou o nariz, que espirrou jatos de sangue, arrastando-o para baixo em direção a boca. Jeff ainda de pé apenas por encontrar-se encostado na parede, Ergueu os braços inutilmente tentando defender o rosto.

Foi quando Harker segurando-o com ambas as mãos o castiçal deu com toda sua força um porradaço nos braços do ex-amigo, quebrando tudo e expondo a ponta dos ossos do antebraço esquerdo; é que o fulano soube que ia morrer. Aconteceu um segundo de silêncio profundo. Choque. Aí, ele gritou horrorizado a plenos pulmões, mergulhando na derradeira escuridão que o engoliu.
Os encaixes para vela do castiçal possuíam em suas pontas espetos para fixação de velas. Harker segurou novamente sua vitima, mas desta vez pelos cabelos e enfiou com força, uma destas pontas no olho direito do rapaz. Quando arrancou, o globo ocular veio junto com pedaços de cérebro. Mas Harker não parou por aí. Continuou a bater e bater; até Jeff virar uma massa disforme. A parte interna de seu crânio rachado como casca de ovo, era extremamente alva e úmida. Perfeita. O lóbulo direito criativo prendeu-se ao castiçal e voou longe. Pela imagem da câmera que estava fixada a uma parede; quase pude ver uma sombra voando pelos ares como um goleiro sobrenatural, apanhando aquela gosma e enfiando-a na boca com voracidade. Ou vi de fato? Não sei dizer. O que uma pessoa pode dizer a respeito de coisas impossíveis, que não seja insensatez? Eu não sei. Não sei mesmo.

Antes de descer as escadas lavradas na pedra de bordas arredondadas pelo tempo; Harker enfiou casualmente a mão dentro de um nicho situado a altura de seus olhos. Uma abertura com diâmetro de uns cinqüenta centímetros. De lá de dentro, retirou uma velha e suja caixa de presentes; aproximando-a perto do ouvido a sacudiu. Parecia que os ossos dentro da caixa estavam a cantar.

 
6
Ester encolheu-se ao som do primeiro grito que ecoou pelas paredes da caverna. Sua pele arrepiou, a bexiga contraiu e ela quase se molhou, enquanto o coração acelerado; parecia querer sair pela boca. Seguiram-se outros lamentos.
-Começou - disse Ester, entrando em modo hamster num sussurro, enquanto procurava um nicho ou reentrância na rocha para sumir de vista.

Foi quando uma luz no fim do túnel caiu sobre ela.

-Não adianta nem tentar entrar em modo hamster Ester. Não tenha medo. - declarou Amber rindo e segurando uma lanterna de luz intensa. - Não se mova! Pode se machucar. Vou até aí.

Ester segurou firme a serrinha de unha metálica escondida nas costas que, tinha roubado de Lisa, quando estavam nas varandas. Com a outra mão, filmou o clarão que era Amber caminhando em sua direção; colocando a câmera em modo diurno reduziu a captação de luz.

-Amiga, venha logo. Estou tão assustada com estes gritos. O que será que está acontecendo? Será que estão querendo nos pregar uma peça? - Pelo monitor da câmera, Ester pode notar a silhueta da amiga que vinha em sua direção. Sentiu um nó se formar na garganta. Lutou para segurar as lágrimas sem conseguir. Amber vinha segurando uma garrafa de vinho quebrada pelo gargalo.


7
Como falei para vocês, não sou detetive tampouco escritor, mas, estou escrevendo mesmo assim. Para combater minha perplexidade e medo, além de naturalmente; tentar entender o motivo desta barbárie. Estudo cavernas. Sou espeleologista. E entrei de gaiato no navio. Em nome de tudo que é mais elevado; quem pediria a morte de alguém para presente de dia dos namorados? Imagino que você deva me achar tolo. A literatura grega, a literatura romana, a literatura egípcia e até mesmo a bíblia, possui histórias de amantes homens e mulheres que, pedem pedaços de corpos de outras pessoas que não tem nada a ver; como símbolo de amor, amizade ou apreço. Mas isto aqui não é um livro. Isto aqui é a minha vida! Como é que pode? Eu não acredito que estou vendo estas coisas. Onde estão meus amigos? A escuridão adensa-se ao meu redor; dura de pedra. Parece que fui socado dentro de carvão e jogaram petróleo em cima.


8
Não teve conversa. Amber, quando chegou mais perto de Ester, correu para cima dela. Deu um golpe tipo jab, mirando a carótica da moça. Não posso dizer se, foi sorte ou azar; Ester ter tropeçado enquanto recuava pelo corredor. Pode ser que sim. Acho que isto evitou que ela tivesse a garganta rasgada naquele momento. Ao tropeçar, caindo de traseiro no chão a garota deu seu primeiro grito no escuro; quando a serrinha de unha entrou fundo em seu glúteo. Mesmo ferida; todavia achou presença de espírito para mexer as pernas, conseguindo não sei como; passar uma rasteira na Amber. Ela caiu de lado; soltando a garrafa quebrada de vinho que segurava pelo gargalo porém, a arma de vidro não saiu de cena. Foi parar uns poucos metros a frente de Ester que virando de costas; rastejou tentando alcançá-la. Amber agarrou-se em suas pernas segurando-a pela barra das calças; exibindo o alto da calcinha fio dental de Ester, que esperneava. Quando a latina enroscou os dedos no gargalo da garrafa, a loira estava com as mãos na serrinha de unha fincada na bunda dela e a torceu e arrancou. Ester urrou de dor. Olhos bem abertos naquela escuridade.

-Eia Ester! Nossa! Agora você tem um furinho nesta bunda musculosa amiga! Vamos fazer mais? - E apunhalou o traseiro de Ester mais uma vez. A serrinha possuía apenas cinco ou seis centímetros; então a garota não estava ferida de morte. - Ester, sabe quem me pediu de presente sua vida? Será que você consegue adivinhar? - Disse Amber sorrindo com malevolência. - Jeff! O Jeffinho!
-Vai se ferrar coisa ruim! Vagabunda! - geme Ester.
-Você, com suas frescuras e falsidade. Usando o dinheiro de seu pai, para submeter e envergonhar meu Jeff diariamente na empresa onde ele trabalha para você; só porque ele não te quis mais. Você nunca assume nada não é Ester? Você nunca erra. É sempre a perfeita, né? Sua pu*a desgraçada, que joga os erros que comete nas costas dos outros! Distorcendo todas as situações a seu favor; para sempre sair bonita na foto. Disse que se ele não ficasse com você; então mais ninguém?! Não é mesmo? Não é sua fodida imprestável?

-Mentiiiiira! Mentira sua Amber! Ele me mandou um e-mail dizendo que a gente ia reatar! - Berra Ester, dando um golpe para trás e por cima da cabeça, cortando o couro cabeludo de Amber que enquanto falava; ia subindo em direção a jugular da amiga.

-Mentira? Vocês romperam o namoro, mas, quando estavam namorando fizeram seguros de vida um no nome do outro; não? Era para ser segredo de vocês dois não é mesmo? Foi tudo idéia minha! Amigaaaaaa! Hellooooou? O seguro ainda ta valendoooo! Ainda não venceu! Vou administrar seus bens!

-What a fuck! Amber!!!! - Ester cospe indignada.

Ficando que quatro, com Amber lhe cingindo a cintura por ter escorregado; Ester dá um pulo para cima e para trás, caindo de costas sobre Amber que bate a cabeça no chão. Aproveitando-se do vacilo da loira, Ester vira-se sobre ela e num ato contínuo; enfia a garrafa quebrada que segurava pelo gargalo nos seios de Amber que começaram a escorrer um líquido cristalino parecido com gelatina.

-Aaaaaaah! Meu silicone sua puta! Você furou meus 400 ml de silicone! - Grita Amber indignada.

-E isto ainda é pouco, vadia! - É quando Amber, finalmente acha um ponto vulnerável em Ester. A loira enfia a serrinha de unha até o cabo bem na boca do estômago da Latina rica e torce de lado. Apunhala mais! Uma, duas, três vezes sem dó.

Ester sente todo o ar ser retirado de seus pulmões, por causa da contração estomacal. Uma vertigem violenta toma conta de sua cabeça. Antes de desmaiar ela enfia o gargalo até o fim no peito da Amber, afastando as costelas flexíveis da loirinha; cortando o coração.

Traída, sozinha, ferrada e de estômago rasgado; com a bunda e as costas furadas sangrando bastante, inclusive pela boca; Ester grita para o cadáver da amiga: - Acorda megera! Bruxa! Falsa amiga traidora! Sua cobra! Cobra! Levanta Amber! Levante-se e me mate porque ta doendo! Ta doendo muito! Uhuhuh-uh-uh urubu!

Chora e chora.

- Socorro! Paiêêêê! Papaieeeeee!

Amber, que estava mortinha da silva; nada podia fazer pela ex-colega - suspeito que é sempre assim que os mortos fazem. Finalmente cai a ficha e Ester entende. Vendo que não obteria ajuda de ninguém; pois tudo que considerava real era pura ilusão, retira a serrinha de unha do estômago arrombado e, com ela termina de abrir as próprias veias para assim; poder libertar-se escapando desta forma da traição, da vergonha e da dor; advinda de toda esta desgraça que abateu-se sobre ela.

Segundos antes de Ester fazer a passagem, creio eu - por que o destino não há de ser tão mau assim - algo sombrio passa em frente a uma câmera caída no chão, próxima às garotas caídas, provavelmente a câmera da loira; entretanto já não sei muito mais de nada. Pode-se ver os pés de Ester estremecerem pela última vez, ao mesmo tempo; escuta-se um barulho nojento de sucção.

Lisa seguiu arrastando o cadáver de William, que um dia foi seu amante; trevas adentro. Sua câmera balançava para lá e para cá em seu pescoço; pendurada por uma correia. Ela ouviu gritos, choro e lamentações. Imagino que estes sons ecoavam em sua mente tão forte; que ela devia achar que estava no inferno. Eu mesmo, já estou começando a me sentir nele. Se é que alguém sabe realmente como; o tão falado inferno é. Nunca conheci ninguém que tivesse ido para lá e voltado para contar. E posso lhes dizer; sem sombra nenhuma de dúvida que jamais, nunca! De forma alguma; gostaria de conhecer. Mas acho, contudo; que estes garotos conheceram. Engraçado um homem de ciências dizer isto, não é mesmo? Mas compreenda, quem lhes escreve agora, não é mais o mesmo que era quando começou este relato. Isto é, sou eu ainda, mas não me reconheço mais. A pessoa que fui, jamais escreveria as coisas que estou escrevendo e só escrevo; por que estou assistindo estas gravações feitas por meninos e meninas mortos. Ou então...
Então o quê?


9
Na beirada do abismo, que é parte do caminho que me trouxe até aqui onde estou agora; Lisa observa o cadáver a seus pés e a caixa cheia de ossos. O celular no bolso de seu vestido reproduz uma canção. Escuto um dueto de violinos e, o som grave profundo de tambor.
Lisa olha por cima do ombro e sorri.

-Oi Lisa! - cumprimenta Harker dando um sorriso sangrento. Em um dos braços, segura caixas de presentes; assim mostrou o celular da castrada.
A garota gordinha de cabelos azulados, o observa por alguns instantes ligeiramente desconcertada. Seus olhos brilham o brilho de uma obsessão.
-Oi amor! - fala ela.
-Como foi para você fofa? - Fala Harker coberto de sangue seco; aproximando-se suavemente dela.
-Para mim, tudo aconteceu dentro dos conformes. Estou cansada, mas, não sofri nenhum arranhão; entretanto você parece que não foi tão bem sucedido quanto eu. - Venha cá e receba o teu presente. - Chama Lisa com um sorriso beato no rosto; apontando um dedo pálido para o cadáver do rapaz William.

Harker aproxima-se mais. E observa friamente aquela casca sem vida. Usa uma voz grave; sem entonação.

-Esta coisa que está a meus pés já foi um homem? Esta carne azulada e com rigor; algum dia mamou os seios de uma mulher? Alimentou-se? Locomoveu-se? Sonhou? Leu um livro? Duvido. Duvido muito. Isto aí caído no chão não é nada. Nunca foi nada. Não será nada nunca. Para sempre nunca mais. Obrigado. Agora repassemos os acontecimentos Lisa, minha fofinha.
-Você acabou com Jeff. Só pode ter sido isto. Nenhuma das garotas seria capaz de lhe infligir estes ferimentos. Ou seria?
-Nossa Lisa, não sabia que suas capacidades de dedução eram tão sofisticadas. Ou então você deve ter percebido que o matei pelo par de sapatos quarenta e quatro que carrego na mão. - Provoca Harker.
-Calma, deixe-me continuar. Eu não tinha interesse nele. Até já simpatizei com Jeff alguns segundos; anos atrás. Estou quase certa que, quem lhe pediu este presente foi Amber; não é Harker? Ela, a Amber pediu que você mata-se o Jeff correto? Amber só pensava em procurações, seguros de vida, silicone e dinheiro. Nunca amou ninguém. Sabia que você a amava e sabia que você é um assassino. No início de suas caminhadas; creio que todos nós uma vez ou outra lhe seguiu. Todos sabíamos o que você fazia com os moradores de rua da cidade; que tivessem o azar de lhe cruzar o caminho na hora e lugar certo. Nunca contamos a ninguém, por causa do que aconteceu conosco aqui nesta caverna quando éramos pequenos. Para falar a verdade; lhe acobertamos muitas vezes. Era para você estar ou morto ou na prisão. Mas isto não aconteceu. A proposta de William para este encontro; era que lhe empurrássemos deste abismo aqui. William, que dizia que me amava; queria você morto. Ele dizia que o que você faz é imoral. Dizia que você é uma aberração. Uma doença. Claro que também devia achar que com você fora do caminho; ele teria alguma chance comigo. Mas para mim; é só você.

-Ao passar pelo túnel sudeste da caverna; enquanto vinha até aqui, encontrei as meninas. Mortas. As duas. - Revela Harker exibindo um sorriso impenetrável que não lhe chegava aos olhos.
-Se não foi você e creio que é isto que está me dizendo; então uma matou a outra. Isto é óbvio né Harker.
-Você erra em alguns trechos do seu raciocínio Lisa. - Diz Harker bem baixinho.
-O quê você disse Harker?

Harker chega bem pertinho. Vários centímetros mais alto que Lisa, observa a garota. Ela está com os olhos molhados. Excitada. Um animal predador excitado ao sentir cheiro de sangue. Ela sente tesão jogando este jogo mortal. Lisa é como ele, e isto não pode ser.

-Você erra em algumas de suas conclusões. Seu pensamento está acelerado. Está sendo precipitada. Não vê todo o quadro. Ester matou Amber. Este foi um acontecimento inesperado. Imprevisível. Se ela não tivesse cometido suicídio, agora neste momento; tudo teria ido por água abaixo ou seria apenas diferente.
-Mas o que levou a vaidosa da Ester a fazer algo assim? - Questiona Amber curiosa.
-Dor. Mas não apenas dor. - Explica Harker - Pesar, mas não apenas pesar. Foi algo maior. Imorredouro. Eterno. Ela vivenciou algo extremamente intenso. Visceral. Tão insuportável; que a única alternativa que lhe restou foi à morte.
-E o que, seria isto? O que ela viu? - pergunta Lisa; arrependendo-se imediatamente de ter formulado a frase.
-A verdade. - Disse Harker rapidamente, enquanto o sapato 44 de Jeff em suas mãos; atinge brutalmente o rosto dela quebrando dentes arremessando-a para dentro do abismo que; como uma boca desdentada e faminta a engoliu sem deixar rastro.


10
Harker ajoelha-se. Abraça-se. Abaixa a cabeça e chora lágrimas amargas. Tudo dera errado. Para ele não havia mais saída também. Estava de coração partido. E assim; tendo apenas a escuridão como companheira gritou para ela.

–Amber! Ambeeeeeeeer! Querida Amber. Como isto aconteceu? Volte. Volte e me diz. Me diz o que aconteceu. Diz que tudo foi um sonho. Ainda somos jovens! Diga que eu posso te amar. - E bate com a testa no chão de pedra várias vezes. - Eu fiz tudo o que você me pediu. Eles estão mortos. Mas você não cumpriu sua parte. Como sempre; mais uma vez você me enganou. Não acredito que te perdi de novo! E desta vez para sempre. Que dia dos namorados mais maldito! Maldito!

Aí o assassino ouve, mas não acredita. Das profundezas do abismo até a abóbada da caverna; como se respondendo aos lamentos, a escuridão clamou seu nome. Harker se apavora. E ele grita. Grita! Uma massa escura desaba sobre seu corpo e ele grita mais alto assim:

- Arlington! Arlington não! Não faça isto! Não me leva! Não! Não me leve. Me mata então. Me mata agora! Depois de todos os sacrifícios que lhe ofertei você avança sobre mim?- Seus apelos não surtem efeito nenhum. Harker começa atirar as caixas de presentes cheias de ossos naquela massa trevosa que estava aos poucos; aproximando-se para contaminar seu corpo. Como se batessem contra uma parede de cimento as caixas explodem contra a escuridão e, os ossos que estavam dentro dela ficam a flutuar emitindo brilho espectral nas trevas. Depois começam a dançar e rodar e rodar; transformando-se num redemoinho de vento encaixando-se uns aos outros formando a estrutura de um fantasmagórico esqueleto deformado que apos estar completo; vem caminhando invertido pelas paredes de braços abertos na direção do Harker. O esqueleto ajoelha-se junto as mochilas e de uma retira o disco de vinil. Coloca a falange do dedo mindinho no centro do dele e roda. Usando os ossos da outra mão faz o disco tocar; encostando a cabeça da falange distal do indicador sobre a superfície negra e brilhante. O som lhe sai pelos maxilares esqueléticos e parece preencher toda a caverna modulando; comprimindo, esticando a estrutura do espaço ao redor de Harker. Até que uma brecha se abre em pleno ar exibindo um mundo que não era para ser. Aí, por esta janela que se expande mais e mais em sua direção; o psicopata pode contemplar o inferno. A coisa mais bela, horrorosa e triste que jamais homem algum deveria contemplar. Vastos desertos, torres construídas com fetos e abortos, mares de pus e toxinas, os caídos andando por aquela orbe ardendo em chamas em certas partes, e em outras; congelando até próximo do ponto zero absoluto. Hordas de imensos insetos bestiais famintos percorrem planícies repletas de lixo. Monstros castrados, sem coração e de garras afiadas lhe estendem os braços. Harker, é sugado para dentro desta dimensão indescritível que, se fecha e se recolhe; para ser engolido pela caveira que transforma-se em redemoinho novamente. Então o mundo começa a girar ao sabor de um vendaval ancestral que leva tudo para baixo e para o fundo. Que fundo? Ora, agora eu sei. É este lugar bem aqui onde estou. Meus amigos nunca vão voltar. Nem eu. Nem eu. Conhece a piada do não nem eu? Não? Nem eu. Nem eu. Nem. Nenenenenem mmmm eu eueueueueueueue nemmmmmxsdojksisjdiosjdijsdiopjsiopdjiwe

A treva sairá das bocas da caverna em forma de chuva e cairá sobre a cidade. Amanhã, quando as pessoas acordarem estaremos esquecidos. Nossa existência terá sido lavada da memória de todos. A única coisa que se lembrará de nós, será Arlington. O menino que eles deixaram perdido para morrer sozinho em algum lugar destas caves, e que agora é parte de toda esta eterna ausência de luz.

Fim