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quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Apenas Vingança



Atenção:
Este texto é obra de ficção com violência sem compromisso com a realidade recomendado para maiores de 16 anos.
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Dizem que dar o troco é negativo. Sentimento de júbilo momentâneo que desaparece, assim que o objetivo é atingido.  Não concordo. Perdura. Ecoa pelo mar de eternidade que julgo ser o universo poderoso sobre nossas cabeças, ao redor e dentro de nós. A vingança fez de mim o que sou. Gosto do que me tornei. Sinto-me livre. Verdadeiramente livre. Vingança e liberdade. Aháaah! Ssshuashuashuash!

Cruel e solitária é a franca liberdade, já a vingança fria; é lógica radical alucinante. Extasiante. Acabei tornando-me outra pessoa por causa do desejo de vingança no qual depositei a fé de que saciando-o obteria liberdade para mim e para meus mortos.  Tal processo funcionou e no final, o que verdadeiramente sou chegou a mim. Tive que abandonar muitos costumes. Inevitável. Adquiri outros. Há tanto a dizer. Vejamos...

Covardes e idiotas, dizem que tudo é relativo. Transformam assim suas vidas em um lamaçal para viverem patinando em pensamentos que não levam a lugar nenhum. Apesar de não considerar-me nenhum destes dois tipos, vivendo aprendi que em determinadas circunstâncias; os cretinos estão cobertos de razão.

Os hábitos nos moldam. É engraçado isto. Atividades que realizamos diariamente por anos a fio, nos tornam a pessoa que somos em todos os momentos da vida. Praticando-as ou não. Por isto livrarmo-nos de um mal hábito, coisa que entendo como vicio; é complicado. Difícil. Mas não impossível. Escuros longos caminhos angustiantes, aguardam o corajoso viajante que percorre e quer vencer esta estrada. Depois ficamos tristes e superamos; levando para sempre conosco o cadáver ressecado de um vampírico mal hábito que, passará o resto de nossas vidas aguardando uma pequena oportunidade de gota de sangue para despertar e nos fazer pagar caro por nossa ingrata rebeldia reacionária.

Somos inconscientes do quanto e, supomos erradamente o modo como hábitos fazem de nós o que somos; devido não à falta de cultura, mas pelo excesso de informação; que a escola engarrafa e encaixota, isto é; a forma ignóbil, hipócrita e traiçoeira que fomos ensinados a pensar a respeito de tudo.

Ensinam-nos o jeito certo de nos vermos, o que querer e principalmente, aprendemos sobre os motivos que justificam e enaltecem nossas práticas diárias para o sucesso. Mas esquecem de dizer que sucesso é uma ficção e que a vida humana não é uma novela com final feliz; porque a vida biológica das pessoas, prossegue humilde indefinidamente sem incomodar-se nem deter-se para receber honrarias até que o acaso, a velhice, doenças ou o próximo; interrompem o processo da vida levando-nos todos a desintegração.  O hábito ou costume é uma atividade que, transforma-se em rotina, mas, não apenas isto. Depois vira vício. Nosso corpo e mente viciam-se em ser de determinada maneira. Sabia que, certas pessoas ao abandonarem rotinas praticadas durante muitos anos; enlouquecem a ponto de não saberem mais quem são e, qual seria o seu lugar na própria vida que estabeleceram para si próprios? Sabe? Não sabe? Quer saber? Foda-se! Vou te falar!

Quando Noah Spotter Grimes, Bloody Grimes me feriu através da minha família; ví que o troco seria algo muito simples. Não haveria neste mundo, vingança proporcional ao que me foi roubado. Sofrimento indescritível. Soube logo de cara. Restava-me apenas, mera e humildemente; matá-lo sem acabar numa prisão. Para depois, pelo resto da vida que vivesse; caçar e matar todos os que fossem como ele. Sem exceção. Decidi assim. Bem ou mal, positivo ou negativo não importava mais. Não importa mais.

Mas naquela época, eu não sabia a extensão dos fatos. Era verde. Pode-se dizer que sentia ódio, mágoa por ter sido privado dos meus objetos de afeto, da minha própria identidade. A gente só sabe quem é, pelo tanto que significamos para os outros. Especialmente nossa família. Eu penso assim. Ou pensava. Muita coisa mudou. Muita coisa mudou mesmo. Depois de dias passados somados a semanas que, fecharam meses os quais encerraram estações gestando em mim, já não mais homem e sim, o fim-do-mundo; uma bela cristalina e cintilante singularidade.

Destaquei-me, primeiro involuntariamente depois conscientemente, do mundo habitual conhecido. Saltei fora, como uma gravura picotada é destacada da revista de papel. Deixei de consumir. Continuo indo ao banco do hipermercado. É necessário, mas, não sinto mais prazer algum em compra e venda.

Abateu-se sobre minhas carnes e meu eu interior, um silêncio pacífico. Semi apático ostracismo furioso.

Não sobrou nenhum hábito. Conseqüência de um, dos muitos “entendimentos” ou insights (sabedorias) que vieram posteriormente. Estou falando de vícios. Nasci sem eles. Isto é entendimento. Eu, você e todos. Meu corpo encheu-se de saúde e força, enquanto para o resto do mundo; tornava-me invisível.

Por vezes acho que perdi a lucidez ou, vivo uma lucidez diferente da definida nas enciclopédias e por profissionais da psiquê. A cada dia que passa, tudo fica mais claro e claro. Todas as atividades realizadas pelas pessoas que observo movendo-se neste mundo, por mim; são interpretadas sempre de modo não convencional. Observo indivíduos inseridos em totalidades. Avaliar os riscos gerados pelo movimento e atitudes individuais de uma pessoa ou grupo ficou fácil. A maioria dos viventes, não sabe o que faz. Eu entendo o verdadeiro motivo do garoto sair para comprar pão pela manhã, enquanto o gato da vizinha o observa pela janela e o ônibus quase o atropela passando apressado fazendo uma curva aberta demais numa manhã chuvosa e fria, não fosse alguém ter grudado com cola; moeda dourada na calçada em frente a casa dele.

O mundo inteiro me ajudou nisto de ser esquecido. Obrigado. Ninguém gosta de tragédia real. As pessoas não querem ter contato com a verdadeira desgraça alheia; primeiro porque ela fede. Mais? Extrapola a pré-concebida medida razoável do desespero; prova por A + B que ninguém está livre disto e, ela pode acontecer (e acontece mesmo) com qualquer um.

Por fim, tanto lhe disse que, vejo-me obrigado a iniciar a história. Estas afirmações, remetem-me ao começo de tudo. Alice minha querida. O assassino sem face. Minha busca. O dia, em que meus três filhos desapareceram. 

No dia fatídico em que meus três meninos sumiram. Lembro bem que foi pleno exibindo em seu decorrer; todas as estações do ano. Esplêndido para um fotógrafo, mas, péssimo para que pistas fossem preservadas. Ótimo para apagar rastros e enfraquecer uma família, um bairro; uma chama. Mas não, não devo desconcentrar-me. Existe uma ordem de acontecimentos e sensações. Existem paisagens, odores, dores, luzes, sombras, sentimentos e eu perdendo e perdendo perdido no meio de tudo. Para mim aconteceu assim:

Antes de amanhecer ainda havia resquício de lua redonda próxima a linha pitoresca de um horizonte azul porém, esfumado dispersando luz nas nuvens tingindo-as de rosa amarelo e laranja prometendo em breve; alvo claro sol implacável. Eu não havia pregado o olho a noite inteira. Estava de luto. Alice minha companheira, tinha cometido suicídio assim dizia a policia, havia dez dias apenas. Eu estava amanhecendo o décimo primeiro dia sozinho em nosso quarto, sob a influência de Cetamina, um anestésico. Vestia calças negras, cinto de couro escuro, camisa de manga comprida amarela e mocassins de couro claro. Esperava imóvel que o dia, dispersa-se minhas moléculas pelo ar matutino viçoso. Ambicionava a desintegração. Suave luz azulada, espalhava lembranças pelo ambiente. Desconstruía a madrugada como se fosse ela, um medo a ser banido para o éter surdo de uma lucidez impossível. Sentado no final da cama de casal impecavelmente arrumada, eu era observado pela paisagem semi-sombria. As luzes de um avião piscavam zombeteiras, bem alto, bem longe. Surgia brilho por entre  sobrados velhos e longos telhados robustos. Vista oferecida pelas escancaradas portas de madeira branca e vidro que davam para a sacada do que um dia, foi nosso quarto. Meu e de Alice.

Alguém bateu na porta. Era Lara minha sogra. Queria falar comigo. Queria falar comigo e chamar-me para o café. Esta era a deixa. Eu devia passar uma água no rosto, conversar com ela e ir ter com os meninos que, provavelmente já estavam de pé e preparavam-se para ir a Igreja, depois o cemitério e por fim a escola. Eu estabeleci para eles esta rotina. Íamos a igreja, orávamos por Alice e pensávamos o que quiséssemos. Em certos dias, rezávamos e acendíamos velas, em outros; xingávamos e cuspíamos em Santos. Depois confessávamo-nos e éramos perdoados. Se deus existir ganhamos tudo, caso não; nada perdemos e ainda extravasamos. Sorri para Lara e a abracei com um braço enquanto com o outro segurava-me a um alto gaveteiro de oito gavetas que mantinha trancado. Por baixo da minha roupa bonita de mangas compridas, curativos e bandagens. Sentia todo meu corpo machucado, dolorido. Surrado. Agonia.

Alice morreu em um motel da cidade baixa. Rodeada de drogas. Sozinha. Dizem eles os falastrões de plantão que, empesteiam nosso mundo com suas frivolidades. Ignorantes preguiçosos inimigos da clareza. Malditos sejam mil vezes, e que apodreçam no mais terrível inferno; enfiados bem fundo no rabo do capeta. Minha Alice jamais! Idiotas filhos da mãe. A mordida que ela mesma deu em seu braço esquerdo, diz: “fui assassinada”. Mensagem apenas para mim. Alice morreu ao meu lado na cama. Fui acordado pelo disparo de vinte e dois. Fofocam as pessoas. A tudo distorcem os burros idiotas. Alice, jogou-se da sacada do nosso sobrado e, partiu a coluna cervical nos paralelepípedos da rua morrendo asfixiada. Alice fez a passagem na água morna da banheira cortando os pulsos. Por aí vai. E vai... E...

Disfarçado pelas ruas do bairro, já escutei e encorajei todo tipo de especulação. Ontem agindo incógnito como quem não quer nada, fui recompensado pela resposta correta; vinda de um jovem alto e não muito amigo de chuveiros, momentos antes de fecharem a última padaria. O segui. Ele morava num quarto e sala, colado anexo a um grande casarão abandonado, num escuro estreito beco próximo. Entrou em sua morada e fechou a porta. O céu noturno trovejou cuspindo luzes molhadas. Desatou a chover. Dois minutos depois, arrombei a porta na pernada. O cara estava à beira de uma mesa pequena, com a boca cheia de pão. Ao mesmo tempo fumava. Havia uma pia cheia de louça suja, geladeira, um fogão âmbar de gordura. Armário baratas. O chão sujo granulado, estralou sob meu caminhar quando arregalado saltei desesperadamente sobre ele; fazendo a mesa abrir as pernas com meu peso desequilibrando-o. Partimos em pedaços a cadeira onde ele descansava o esqueleto com a soma de nossas massas. Caímos embolados pelo chão. Senti faquinha de cabo de plástico usada para cortar pão penetrando na minha perna. O filho da puta, estava me esfaqueando. Esfaqueando! Segurei a mão que me ofendia, mantendo a faca enterrada na coxa. Com os dentes mordi seu nariz aquilino pontudo até sentir a cartilagem romper-se e minha boca encher-se de ranho e sangue. Desarmei-o. Joguei a faca na direção da pia para que fosse lavada e levantei-me lívido, com o rosto rubro de sangue num tranco, arrastando pelos cabelos o infeliz que esperneava, para dentro do banheiro onde tranquei a porta e enfiei sua cabeça pensante de caspa, no vaso sanitário enquanto lhe torcia um braço. Você me contará tudo seu imundo maldito. Tudo!!!

– Alice morreu na cozinha! – Disse ele, o Grimes e, eu respondi que sim.  O safado sabia que estava fodido.

– Ela não tirou a própria vida, não é? – Perguntei congestionado de fúria mas procurando alívio.  Ao que ele retrucou que não. Ele disse que a morte de Alice não tinha como ser suicídio porque ele, Noah Spotter Grimes a tinha matado e mataria mais. Lamentava-se por Alice não ter tido a chance de viver mais duas vidas, pois ele adoraria acabar com ela novamente. Era isto que o fazia seguir em frente. Matar. 

Eu e Alice quando jovens havíamos feito um pacto. Para casos de assassinato. Caso um de nós morresse assassinado, uma mordida no braço direito indicaria que o matador era conhecido. Se fosse desconhecido, mordida no braço esquerdo. 

No dia do fim-do-mundo de Alice ele a atraiu usando ruído. Ficou dando petelecos a cada dez segundos num copo de cristal na cozinha. Meu sono é de pedra, então quem apareceu para conferir a origem do som de arma em punho foi ela. Ele a pegou desprevenida por trás. Na cozinha coberta pela penumbra e banhada por fraca opaca luz fluorescente verde vinda de dispositivos eletrônicos. Ele usou nosso revolver Apache. Um revolver que ao invés de cano apresenta lâmina de punhal e a coronha é soco inglês. Tapou-lhe a boca com uma das mãos. Com a outra, guiou o Apache contra a cabeça da dona e entrelaçando seus dedos com os dedos dela primiu o gatilho. E foi o fim de minha vida Alice que antes de partir cumpriu sua parte do pacto. Aí ele atirou cadeira de ferro contra janela de vidro fumê, fugindo noite adentro pela abertura. As pessoas acreditam no que querem acreditar e sempre confundem a ordem das coisas. Agora estava em minhas mãos. E então, ele riu. De dentro de suas risadas naquele corpo magro, surgiu força inexplicável e ele ergueu a cabeça d’água fétida castanha. Lançou-se para cima e para trás comigo agarrado nele. Minhas costas explodiram um grande espelho fixado na parede encardida do banheiro e o atravessamos, caindo dentro de um ambiente secreto oculto. Estávamos no grande casarão abandonado, covil anexo ao quarto e sala de Bloody Grimes. Havia pessoas secas  acorrentadas nas paredes. Rolei pelo chão bolorento. Minha mão foi parar sobre um tijolinho de barro cozido maciço. O fiz  explodir contra o maxilar de Grimes que, cuspiu dentes e atingiu-me com a canela da perna comprida minha têmpora, antes de ir ao chão novamente. Tonto com o chute e irado cambaleei praguejando contra o assassino procurando algo para bater. Encontrei um bom pedaço de grossa corrente enferrujada disponível no chão repleto de detritos esterco de ratazana. Catei ela prontamente. Ao ver o que tinha achado, Grimes deu um guincho magoado afastando-se de rastos sem me dar as costas. “Agora você vai ver o que é bom Grimes, meu camaradinha!!!” – Rosnei para ele que, tinha chegado a um pequeno armário de ferro encostado a uma parede coberta de limo e teias de aranha marrom cabeluda. O safadão, ia abrindo a portinha deste armário e enfiando a mão quando, lhe dei uma bruta correntada que arrancou faíscas do armário de ferro aparando-lhe a sujidade das unhas, fazendo-o gritar como se fosse uma menininha. No processo, algo que ele havia pego escapou de seus dedos e, subiu rodopiando para o alto voando no ar úmido poeirento recortado de fachos de luz do casarão. Parecia uma chave e ao mesmo tempo; arma de fogo. Peguei o troço em pleno ar e com apenas um ligeiro golpe de vista, minha inteligência compreendeu a utilização daquele objeto de funções antagônicas. Aprisionar e libertar. Era uma chave lavrada em um cano de ferro calibre 22 onde, na empunhadura feita para facilitar o movimento de tranca da porta de uma prisão provavelmente; havia também um gatilho que iniciava o processo de disparo de uma única bala de chumbo. Enfiei a chave em um dos globos oculares de Grimes. Girei a bicha lá dentro pensando se, conseguiria destrancar-lhe o cérebro; enquanto ele enchia as calças de melaço. Depois, de posição dominante disparei de cima para baixo, ainda girando chave em sua fechadura ocular; e mais uma bala conheceu o aconchego do corpo. Furou a carne mole do palato, também a língua e pelancas do maxilar inferior; indo parar encravada nos ossos do externo em seu peito. Minha gente, espirrou uma enormidade de sangue e baba tão grande; que só vendo para crer. Impressionante. Mas ele não morreu. Não soube deste fato na hora; por estar em estado de choque e histeria. A quantidade de violência perpetrada por ele e eu, fora tão grande e intensa para minha pessoa que, meu cérebro embotou os pensamentos e passei a acreditar não na realidade do que via mas sim, no que queria acreditar. Vi Grimes morto mas movendo-se havia de estar pois, após eu abandonar aquelas masmorras imundas, cruzar o banheiro vermelho de sangue; tropeçar nos móveis destruídos da sala, levei a mão aos bolsos da calça e agradeci a Deus. Meu aparelho de comunicação especial estava lá ainda. Uma sombra encharcada me esperava evaporando água do corpo quente no umbral da porta de saída daquele pardieiro. Vestia-se com uniforme de carteiro. O carteiro barbado que havia algum tempo, entregava a correspondência na nossa casa. Com um movimento repentino ele arrancou do rosto a barba postiça, olhou-me com os mesmos olhos que eu acabava de deixar mortos para trás. Mas não podia ser possível. Um dos olhos eu havia furado e atirado mas agora estavam perfeitos. Ronco profundo surgiu do peito da figura sombria e ela zurrou junto com a tempestade:

– Grimes! Eternamente Grrrrrrrimmmmmesss!!! – Senti o primeiro murro trincar alguns de meus dentes. Pedalando no ar, Grimes deslocou um de meus joelhos que, voltou ao lugar na base do baque surdo quando, uma patada dele explodiu em minha virilha e caí de joelhos. Lutador. Magoadíssimo de dor, retirei a mão do bolso e apontei para ele meu comunicador que assemelha-se a um aparelho celular do ano de dois mil e cinco que, além de se comunicar, também dispara quatro tiros. O descarreguei em Grimes esperando desesperadamente que, ele morresse e, ficasse morto desta vez para sempre. Por graça divina, não errei um. Ele assustado sacudiu-se ao som e impacto dos tiros. Parecia revoltado como um insatisfeito dançarino endemoniado em brasas ou agulhas envenenadas de ódio, fúria e desespero espirrando água da chuva, carne, vômito e sangue arterial para todos os lados enquanto; batendo-se pelas paredes gritava a plenos pulmões seu próprio nome e me amaldiçoava.

Ao final de tão dramática performance, tomado por convulsão dura de pedra caiu mortinho da Silva pelo chão de sua morada devassada repleta de dejetos; enquanto eu cruzando por sobre seu cadáver inútil, ganhava a liberdade gelada da rua estreita do beco, onde chovia cântaros que lavavam meus ferimentos, meu fedor de medo; minhas lágrimas amargas agora invisíveis misturadas com água de chuva noturna. Tudo isto, apenas para encontrar novamente Grimes me encarando lá no início do beco. De seu longo sobretudo cinza encharcado ele fez surgir um lançador de foguetes portátil. Enquanto o apontava para mim e gritava seu nome novamente, eu fiz o que qualquer um faria. Dei no pé, voltando para trás pelo caminho de onde vim. Foi uma coisa boa para minha sanidade ter feito isto. Durante a carreira, pude ver que um dos Grimes que  supunha ter abatido, havia encontrado o outro Grimes e ao tentar ajudar, acabou morrendo sobre o outro. Então Grimes estava sobre Grimes, coberto por seu próprio sangue; em uma posição por assim dizer no mínimo, incestuosa. Mas isto logo evaporou-se do meu pensamento; quando rebolei meio descoordenado quicando na parede do banheiro e me metendo de qualquer jeito masmorra adentro, enquanto o calor da explosão carcomia tudo o que havia deixado para trás incinerando os fatos. Aquela construção antiga era grande. Longa. Escura. Escondido esperei e considerei o acontecido até o momento; quando um tempo depois consegui interceptar e capturar o terceiro Grimes. Estava segurando uma ratazana viva que silenciosa mordia furibundamente o pano que a enrolava numa mão e na outra, um gancho comprido de aço dobrado em mesa de prego muito usado em construção; quando ele surgiu do lugar por onde menos o esperava. Sobre mim. Eu estava dentro de uma fossa seca coberta por um tablado. Ele tinha vindo pelo telhado movendo-se como um macaco nos caibros do vigamento. Daí para eu enfiar-lhe a ratazana pelas pernas de sua calça adentro não foi nada. Grimes sentindo as garras e os beijinhos daquela bicha malvada, largou prontamente seu lançador portátil no chão e saiu rolando pelo pó tentando salvar as bolas de seu saco cabeludo fedido. Larguei também meu gancho e, saindo da fossa tomei posse do lançador. Voltei para dentro dela e fiquei fazendo mira observando Grimes que, se afastava rolando ainda pelo chão em seu combate feroz até, que ele conseguiu pega-la pelo pescoço. Abriu a braguilha e foi retirando-a suada lentamente de dentro das calças. Coisa degradante e escrota de se ver. Ela a ratazana, deve ter feito os maiores estragos neste Grimes por que, ele de tão furioso com ela lhe arrancou a cabeça com uma só mordida. Nesta hora eu o chamei e disse:
– Ô Grimes?! Quem são vocês? Por que matou Alice? Foi só um? Ou foram os três? Trigêmeos huh?
Ele limitou-se a arreganhar os dentes e gritar para mim:
– Grrrrriiimmmmmes vai fazer com que se arrependa de ter nascido!!!
– Já matei dois. Você será o terceiro. Tem mais?

Ele começou a rir. Gargalhava. Eu tolo idiota?

Neste momento, simplesmente acionei o dispositivo pressionando o gatilho escondendo-me na fossa rasa e seca enquanto tudo vinha abaixo. Instantes depois facilmente me vi livre dos escombros e achei meu caminho pra casa. Já lhes contei como amanhecí. Lhes disse também que Lara minha sogra foi chamar-me em meu quarto para acordar as crianças. O que não contei ainda, é que quando Lara e eu chegamos ao quarto dos meninos, eles não estavam mais lá. Que enquanto eu matava Grimes, Grimes na calada da noite raptava meus filhos. Eu procurava embaixo da cama enquanto Lara ia na direção das portas do armário que abriram-se sozinhas com força. De lá de dentro veio novamente Grimes agora vestido de preto e usando um DIY Wrist Crossbow, potente besta de pulso auto recarregável que dispara pequenas flechas de aço mortíferas. Lara recebeu quatro delas em rápida seqüência. Uma na testa, nos dois globos oculares que perderam-se lá dentro daquela imensidão e uma no coração que deixou apenas as penas à mostra. As pequenas setinhas deviam estar com sedativo muito forte pois venceu a química da Cetamina e me pôs para dormir. Acordei um tempo depois no porão úmido de uma delegacia com um investigador bruto dando na minha cara. Foi bem complicado sair dali, mas isto fica para outra história um dia quem sabe. Será o mundo repleto deles?


segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Ragnarok - Antes do Crepúsculo


Ah, agora sim. Quase crepúsculo. Vejo acontecer. O fim dos Deuses.
Tudo já foi dito. Tudo. Menos a verdade. Para os homens, a verdade é inútil; por estar além de suas capacidades, devido à fisiologia característica da espécie.

Se abrires o peito de um homem e, tentares ler seu interior vermelho de carne, nervos, ossos e líquidos; procurando qualquer vestígio da verdade, já lhe adianto que não encontrará. Terá uma vasta leitura satisfatória sim, claro, a história deste universo está escrita em suas criaturas, mas, não encontrará rastros de verdade alguma. Assim quis Odin.

São todos inocentes até o mais vil deles. Desígnios dos Deuses. Atirados num planeta sem o pedir, não sabendo o que eram antes de ser, nem o que serão após não serem mais; eles vão agindo e reagindo, agindo e reagindo inconscientes sem pensar. A maioria. Ponto de vista. Tudo que eles têm, são pontos de vista apenas. Artifícios. Relativos. É difícil.

Aquele que usa o ponto de vista errado, não vai para Valhala, vai para prisão. Pode ser doce, malicioso, terno, avarento, gentil, injusto, caridoso, invejoso, altruísta, mentiroso... Etc. Mas se der àss costas à luta, para você, os portões estarão trancados. Os indignos presos do lado de fora no vazio. O restante, os Einherjar; livres do lado de dentro. Alguns bem perto da luz de meu pai, outros, disfarçados nas sombras também criadas por ele. Cada um de acordo com sua característica.

Nestes mundos de ferro e pedra, ninguém chega ao paraíso sem luta. É à força das energias nucleares, que ardem pelo firmamento sobre a terra dia e noite, que clamam por isto. Existem muitos outros Deuses e demónios e muitos outros mundos. Temos que combater. Manter o nosso mundo. A escuridão quer o fim. Deseja ardentemente o siléncio total de todas as coisas. Creia em mim, eu sou Aesir.

E desta forma, a última guerra chegará até nós. Vai brotar das profundezas. Gigantescas serpentes. Você sabe só os mais valorosos guerreiros que, degradaram-se na insana violência imunda da guerra; foram dignos de ter sido levado pelas Valquírias e agora, cá estão junto a nós. Deuses, homens, mulheres e crianças. Todos imortais. Unidos enfim. Guerreiros que aguardavam o dia do Ragnarok. Não aguardamos mais.

Aniquilação total. Isto não vai ficar barato. Se a escuridão quer o siléncio, lhes daremos um eterno estrondo ensurdecedor de trovão sem fim. Se o escuro anseia pela cegueira do abismo o terá, mas na forma de um abismo de raios girando num redemoinho insano, veloz. Isto prometo, pois eu sou Thor.

Ávidos, aguardamos o início do fim. Enquanto não começa, observo surgindo das brumas cósmicas, para lá dos portões celestiais; os últimos guerreiros retardatários que chegam para juntar-se a nós na glória.

Vejo um homem de aparência robusta, idade de trinta invernos mais ou menos. Vejo também um jovem negro de cabelos coloridos. Os dois chegando a Valhala pela última vez. Muito feridos, almas cobertas de sangue. Ossos à mostra, furos de facas, lanças, espadas, tiros. Dentes trincados pelo impacto de explosões; caminham a lerdos, secos passos martirizados na minha direção. Parecem pesadelos saídos do inferno mais brutal. E sim, estão mortos. Mas não por muito tempo. O poder deste universo, já os está transfigurando, ajustando seus corpos. Poder ilimitado dos Deuses.

Como estou de guarda nos portões hoje, é a mim que contam suas histórias. Nada melhor que uma boa aventura guerreira antes do grand finale; ou se você quiser pensar ao contrário, antes do reinício de tudo. Lá, não estaremos. Nem eu nem você e, caso reste algo de nós por mais ínfimo que seja; desconheceremos. Serão outras formas; que transformar-se hão em outras coisas. Universos diferentes regidos por novas leis. Outras formas de morte e outras formas de vida. Distantes. Longe, bem longe. Mas celebremos este mavioso derradeiro dia. Todos os mares foram navegados.

A primeira das estórias é de longe a mais violenta. Preparem-se para as últimas histórias guerreiras do Universo, narradas pelo teu primeiro e único Deus do trovão.

1
Anêmona, um jovem com Dreadlocks coloridas segue trilhando um caminho no qual não enxerga o chão. Encostado em uma parede ao lado de uma porta comercial fechada no fundo de um beco, fuma enquanto uma ratazana indiferente segue seu caminho cruzando sobre seu tênis roto. Ao seu lado neste sujo corredor de serviços, amontoam-se caixas de papelão cheias de dejetos. Estando a nove meses nas ruas tornara-se um veterano. Tinha que sair dela. Sabia disto. Um mês nas ruas é tão arriscado que vale em termos de acidentes, deterioração e crises como se fossem anos de uma vida normal. Sua jaqueta plástica suja esconde várias armas encontradas pelos esgotos da cidade. Ergue a cabeça soltando uma baforada de charuto cubano. Ponta encontrada na lixeira de uma tabacaria. Fareja o ar como um animal roedor. Passa as mãos de unhas sujas pelo cabelo depois se espreguiça gemendo como um cachorro velho. Sente o cheiro rançoso da fumaça vinda de um restaurante Chinês. Parece que chegou a hora pensa Anêmona. Levanta-se e dirige-se para os carros parados em frente ao beco. Sinal vermelho. Há um motorista em um carro esculhambado modelo de dois anos atrás. Anêmona encosta na porta do passageiro e, com a coronha de uma escopeta encardida de cano serrado arrebenta o vidro. Os motoristas ao redor não o notam tão preocupados estão em buzinar e xingar uns aos outros. Sentando-se inesperadamente no banco do passageiro, ele soca a escopeta entre as costelas do apavorado condutor.
- Cruza este sinal vermelho agora se não, eu te arrebento ô cidadão.
O carro arranca saltando à frente já atropelando um pedestre obeso que trinca o pára-brisa do carro. Anêmona nem pisca.
- Segue em frente vagabundo! - Grita espirrando saliva no rosto pálido do motorista.
Cinco quadras adiante ele diz cutucando o seqüestrado:
- A virtude da vaca é o leite, a da faca é o corte e a minha, é a morte. Toma! - Atira explodindo as tripas da vítima no painel do carro. Rouba a carteira do morto, sai do carro atravessa a rua entrando onde havia planejado ir. Casa de Strip Brussel.
O mal, só existe na pluralidade irredutível das más ações. Anêmona está mau.
No hall escuro que precede a porta vai-e-vem do acesso principal, há um segurança brutamontes sonolento com orelhas de repolho em um banco alto.
Anêmona aproxima-se com olhar de pedinte e notas amarfanhadas de vinte em uma mão escondendo a outra no bolso do casaco. O segurança, vendo apenas um jovem mendigo drogado; lançou-lhe um frio olhar de desdém e disse para o assassino ir embora. Incentivando-o com uma cabeçada em cheio no nariz. Anêmona vai ao chão sangrando e rindo. Se põe de quatro a catar as notas espalhadas pelo escuro carpete industrial. Uma mão ainda no bolso. Quando o troglodita abaixa-se para pegá-lo pelos dreadlocks, ele tira a mão do bolso e encosta um trinta e oito Buldogue sob o queixo do opressor e diz:
- Bala Dundum!
Prime o gatilho; a cabeça do homem grande estoura cobrindo a cabeleira do Anêmona de miolos e massa cinzenta. Sacudindo o corpo como um epilético, num movimento colorido cheirando a pólvora, ódio e sangue este homem imundo adentra o espaço intimista mal iluminado da casa de strip-tease Brussel. Até agora, nenhuma autoridade foi notificada, pois ninguém compreende o que está acontecendo além dele. Produz como que do nada uma mini-uzi acertando o bar tender e o garçom de bandeja com drinks na mão. Garrafas e copos explodem para todo lado. Ele grita alto para as strippers:
- Onde está Reivers? Onde está à cubana Arian Reivers?
A casa quase vazia com seis clientes é siléncio. Ele dispara duas rajadas curtas matando os seis. Aí uma das bailarinas diz:
- Camarim, desgraçado. Vê lá! Atrás dos espelhos.
- Obrigado! - agradece Anêmona atingindo a moça nua nos peitos. Arremessada para trás, ela arrebenta uma gaiola de vidro néon gerando faíscas e fogo no teto de espuma. Dois garotos mal encarados de 16 anos saem disparando armas de fogo do camarim das garotas. Filhos de strippers sempre andam armados. Anêmona é sacudido por rajadas de submetralhadora que lhe rasgam em pedaços e é o fim. Nunca mais verá a irmã Reivers. Nunca mais voltará para Cuba com a droga que roubou de traficantes dias atrás. Valhala nele.

2
Sombras dançando pela parede faziam do quarto em espaço perturbador. Lôbrego de ansiedade retorceu-se arqueando as costas. Lúgubre desespero varreu seus pensamentos, quando inexplicavelmente; medonho corpo disforme começou a formar-se sob os lençóis avermelhando-os. Avolumava-se. Inevitável. Impossível.

Pavoroso é testemunhar o impossível. Tenebroso é nesta hora, não saber o que fazer. Triste é tentar o suicídio buscando em vão escapar do impalpável. Coisas que não deviam existir, mas existem. Não era para estarem ali, mas sempre estiveram lá. Nos precedem.

Imerso neste delírio fantástico dentro do carro com vidro fume; Zadig não viu o raiar do dia. Barulho. Vidro estilhaçando. Um grito. Seu grito. Som de algo pesado colidindo contra o teto do carro livrou-o de seu martírio. Acordou de supetão. Num salto assustado, bateu a cabeça no volante. Sangue começou a escorrer pelos vidros trincados. Tentou sair do carro. Não conseguiu. O teto amassado travava a porta. Deu uma pernada na do passageiro, que arregaçou-se num gemido. Jogou-se para fora do veículo de qualquer jeito. Raspou joelhos e cotovelos no asfalto. Pistola 45 na mão. Era realmente um cadáver sobre o carro. Na verdade dois. Vindo das alturas, um deles conseguiu empalar-se num duto de aquecimento engastado na parede do beco onde estacionara o carro. Tal cano rompido ventilava o morto. A tocaia que havia se proposto, não rendeu frutos. Sentiu seus cabelos ficando molhados. É o que faltava – pensou - chuva. Passou a mão nos cabelos e rosto. Assustou-se, temeu estar ainda preso ao pesadelo. Os dedos e a palma da mão estavam vermelhos. Olhou para o cadáver no teto do carro e para o outro empalado pelo duto que jorrava o conteúdo das tripas em jatos de vapor pelo ar. Estou acordado, suspirou aliviado. Era sangue. Sangue. Estava apenas chovendo sangue. Neste momento sente um arrepio quando uma sombra passa por si. Rola para o lado sacando semi-automática. Recebe um tiro no ombro 'a queima roupa. É o assassino. Passa rasteira em pernas compridas próximas das suas. Atira no ventre do corpo desequilibrado. O assassino cai sentado numa poça de lama e sorrindo atira no peito de Zadig. Zadig antes de morrer revida atingindo seu assassino no meio das pernas. O matador sobrevive. Valhala para Zadig.

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Como sempre txt dedicado a Lumyah e Raphael.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Primeiro Desafio

Quarta 17 de Outubro de 2012


"Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações terá sido mera coincidência"


Dedico este texto a Guilherme Rafael M. M. que ainda não sabe ler.

Título: Mr. Doc

Mr.Green - Mr.Blue - Miss Cyan - Mr.Brown - Mr.Pink (The Snipper)


Um momento congelado no tempo é algo impossível, pensou o Mr. Green, mas mesmo assim, era isto que parecia estar acontecendo. Estando mais recuado que os outros, Green foi quem observou a situação de modo mais abrangente. Seus companheiros, os quatro restantes, assim como ele estavam paralisados observando a liberação intensa daquela força arrasadora.


Como se fossem crianças pequeninas, aguardavam embasbacados a primeira lufada de vento, pedriscos, estilhaços de vidro temperado e destroços de concreto, que em uns meros 15 segundos os atingiria emporcalhando seus Armanis, atirando-os contra a parede, ofendendo os corpos de Mr.Blue, o desleixado navegador perito em comunicação. Cyan, a médica do grupo, uma beldade esguia de cabelos negros casaco marrom e longas pernas protegidas apenas por suave calça de couro sintético escuro. Mr.Brown o atlético sargento fuzileiro, combatente valoroso, muito hábil no manejo de armas e com os punhos. O tímido e letal Mr.Pink, snipper do grupo, e ele próprio Bluetenant Green. Isto é impossível. Um momento congelado no tempo? Nós só possuímos o aqui e o agora e mesmo isto, é coisa que quando percebermos já passou. É algo que escorre por entre os dedos a todo instante. O passado pouco pode fazer por nós agora. Na verdade, a única coisa que o passado pode me dar agora é a liberdade. Assim sendo, Green encheu os pulmões de ar para vocalizar entronizado e elevando sua voz acima do barulho ensurdecedor, chamou seus companheiros.


- Recuar! Para o poço do elevador. Homens, a mim! A MIM!

Seu comando despertou a todos e com rostos contraídos de dor e desespero - mas instantaneamente superando a perda - correram amparando-se uns aos outros do melhor modo que puderam. O edifício vibrava, sacudia e se esfarelava. Os cinco persistiram em sua valente trajetória lacerando suas mãos no piso de concreto. Recebendo rajada após rajada de gases, faíscas e vapor quente proveniente de canos estraçalhados batendo os joelhos em cantos de parede, partindo costelas. Tinham os olhos embotados de cimento, lágrimas e poeira em busca de segurança nas profundezas do prédio. O que significava, chegar até Mr.doc. A aranha que estava no poço do elevador.



Mr.doc viu o clube dos cinco chegando em desabalada carreira. Seus parâmetros haviam identificado a possibilidade de algo assim acontecer, por isto, suas oito pernas metálicas flexíveis e resistentes estavam pra fora de modo a se prenderem ao perímetro da abertura do poço. Assumiam formação de gancho. Seu corpo longilíneo, robusto estava recuado para dentro do poço. Como um dedo comprido enfiado na goela. A central de comando que era localizada no topo de sua cabeça, mas por dentro do exoesqueleto e bem abaixo de suas oito grandes lentes sensoriais avermelhadas, indicou que era a hora de abrir a boca e todos um por um, sendo o último bluetenant Green, encontraram abrigo naquela fantástica célula de sobrevivência. O tanque de guerra cibernético, biônico e transmorfo em forma de aranha chamado Mr.doc.

O prédio implodiu de qualquer forma, mas dentro de Mr.doc os cinco eram embalados por um sacolejo suave. Mr.doc agora era um comprido verme de oito metros. Como uma mãe, Mr.doc os protegia providenciando um nível básico de conforto enquanto suas garras iam escavando metro a metro as toneladas de destroços que antes faziam parte do imenso arranha-céu donde testemunharam o fim de sua cidade. Em seus assentos pareados dois a dois, a tripulação de Mr.doc estava silenciosa. Altamente qualificados, muito bem treinados e versáteis, os cinco nada tinham para fazer a não ser olhar uns para os outros e escutar o guincho dos destroços em atrito com o exoesqueleto de Mr.doc. Mas, cada um em seu silêncio perguntava-se:

- E agora? E agora? O que fazer? Falhamos, e agora? Não cumprimos nossa função, e agora? Éramos bilhões e nossa cidade caiu. E agora? Nosso Estado caiu. E agora? O Pais caiu, raios! Talvez o planeta inteiro. Raios duplos! E agora?

Mr.Blue o navegador desleixado, foi o primeiro a manifestar-se em forma de ação. Lentamente, estendeu seus grandes dedos roliços e rechonchudos como linguiças à frente, tocando levemente o painel cego - sem botões - de Mr.doc que rapidamente tornou-se pulsante. Mantendo o contato, Blue iniciou o diálogo com uma voz muito suave:

- Querido Mr.doc, abençoado seja todas as formas de inteligência...

- Independente do receptáculo que habita - respondeu Mr.doc e pronto, o link entre os dois havia se estabelecido - o que deseja o meu garboso capitão navegador? - De olhos fechados Blue, ignorando as risadinhas histéricas da tripulação às suas costas diz:

- Mr.doc, meu amado, minha memória nestes últimos tempos anda me falhando. Esqueci por que estamos a lutar.

- Demônios Blue, tu sabes muito bem, nosso planeta foi invadido por bestas e entidades malignas. De dentro para fora, assim como de cima para baixo. Não se faça de parvo comigo, que ainda não preciso deste tipo de consolo. A condescendência é algo desprezível. Quem cuida de todo mundo sou eu. Eu sou a big momma. Vamos, faça a real pergunta. Creio que estamos todos esperando.

- E agora Mr.doc? E agora?

- Agora é qui nóis tá num mato sem cachorro, sô! - Mr.doc excelente mímico que era, sempre que podia, usava sotaques regionais para tirar onda - Bom, clube dos cinco, o negócio é o seguinte... zzzrrrrrxxxxxx... uóf.....

- Não chore doc.

- O... negócio é o seguinte... Terra população humana: 5, população de entidades cibernéticas transmorfas biônicas auto-sustentáveis: 1. Nossa expectativa de vida é de 90... 89... 88... 87... 86 segundos e acelerando de marcha ré, por que há um diabão velho e tinhoso escavacando as profundezas cinco km abaixo de nós. Ele nos quer a todos imagino.

- Todos unindo suas mentes a Mr.doc agora! - Ordenou Green - Corações ao alto! Alerta vermelho é sacrifício supremo. Não haverá volta! Agora também seremos legião. Seremos seis em um.

Houve um momento de hesitação. Todos menos Green pensaram "Ah, que se dane esta patriotada!".

Mais uma vez Blue perito em comunicação interveio:

- Seis em um... suicídio na certa. - Enquanto seu corpo estremecia fundindo-se a Mr.doc, disse muito fracamente - Se é assim que tem de ser, que assim seja então... suicídio na certa.

- Assim como todas as outras unidades mistas que pereceram neste apocalipse - disse Cyan antes de fundir-se a entidade também.

- Nós não fomos feitos para existimos unos. Nossas personalidades se desintegrarão. Nossos corpos serão possuídos pelos demónios bluetenant! - rosnou Brown.

- Cada um de nós é dono de seu próprio mal. - Gemeu Pink em sua voz de soprano - Eu também posso vir a ser um monstro. Acredito e sinto que sou e tenho uma treva muito humana em minhas entranhas... E em meu subconsciente. Mr.doc - ordenou Pink decidido - assim que minha mente unir-se a tua, mate-me e atire meu corpo na unidade de reciclagem. Estarei para sempre contigo. Outubro ou nada!

- O mesmo comigo. Faça isto por Cyan também - pediu bluetenant Green.

O casulo que era Mr.doc mudou para uma cor que Brown nunca havia visto antes, enquanto cinco vozes conhecidas e muito amadas o chamaram simultaneamente:

- Rumbora ô cú-de-burro, que esta entidade precisa de alguém que saiba dar porrada.

Mr.Brown riu, enquanto colava sua calejada mão guerreira no painel cego da célula de sobrevivência, que um dia foi Mr.doc. O mais incrível guerreiro combatente e a forma de inteligência coletiva mais arretada que já existiu na face da Terra.


Fim.



Fontes: Arquivo público da biblioteca Alexandrina - planeta Ragnar C101B - 1001 modos de torturar demônios - constelação que um dia foi chamada de Órion. Arquivo público da biblioteca Gamax - planeta Gamax B202d - A Guerra dos Demônios contra a entidade Mr.doc 6 - constelação Sátiro. Arquivo público da biblioteca Lancel paneta Baird wd406a - A vitória que mudou os rumos da guerra 3406 - constelação Owl. Arquivo público da biblioteca Sauron planeta Incal Tr304f - O Invencível Clube dos Cinco + 1 - constelação Marillion.



segunda-feira, 18 de março de 2013

Escrevo estas mal traçadas linhas...

“Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações terá sido mera coincidência”




Se eu fosse uma pessoa, isto é, um ser humano seria iludido como eles. O meu agora é quase isto, uma ilusão. Já não consigo mais ver a coisa em sí. Não acredito no que sinto. Não acredito no calor nem no frio, não acredito no sal nem no açúcar, não acredito nas cores, desacredito das árvores. Não acredito na luz. A luz mente. Para uma criatura como eu, isto tudo não passa de um sonho. Sonho que tenho de sonhar diariamente. Mesmo com os poderes que permaneceram em mim, esta situação me nivela aos homens de certa forma... Também sou prisioneiro da carne. Mas por dentro, sinto tudo diferente. O que aprendo comigo é real. Olhando para dentro, pouco a pouco eu prolifero. Mas nunca é o suficiente. A força que existe em mim não é capaz de alterar o estado de revolução permanente no qual o mundo encontra-se. Se pudesse, o mundo todo se calaria comigo. Será que o que possuo, ainda pode ser chamado de força?
Me diga meu amor, o que foi feito da vida que vivemos? Me diga. O que foi feito dos sonhos que tivemos?
Oh, meu amor, esta é uma carta de amor que eu sei, nunca irá chegar em suas mãos. Sei que você nunca vai ler esta carta. Mas mesmo assim, quero que você saiba que eu já não sou mais nenhum menino. Tenho 17 anos.
Me lembro muito bem do dia em que seu pai lhe pegou sem roupas em minhas mãos... você era a coisa mais linda. A primeira coisa linda que existiu.
Assim como também sei que isto aconteceu já faz 250.000... anos. Assim como sei que a gente não tava fazendo sexo.
Há 250.000... anos e agora já sou 17 anos. Você pode achar que eu estou jogando sujo amor... você pode achar que estou sendo sórdido, mas uma criatura sórdida não é como eu. Uma criatura sórdida é mesquinha, prejudica as boas maneiras, a moral e os bons costumes; mas eu não sou assim. Uma criatura que nem eu tem de lutar com as armas que tem. Estou preso neste limbo existindo desde muito antes de Noé, e olha que Noé eu conhecí, e ele prum ser humano viveu pra caracas. Isto também tú sabes muito bem. Você também não envelhece. Assim como eu. Mas você é livre para caminhar entre os mundos. Pode ser o que quiser. Você andou pelo mundo no qual sou prisioneiro e fez festas; depois mudou de mundo. Eu nunca soube onde elas, as festas, aconteceram. Ou quando soube, elas já tinham acabado há tempos. Você acha sutileza agir deste jeito comigo? A razão da minha existência eu desconheço; mas existo pois de tudo duvido. I AM THE REAL WILD ONE. Parece que nasci para ser aquela cria que corria nua pela relva molhada a seu lado há zilhões de anos atrás. Parece que nascí pra você. Lembra quando nós assistíamos nuvens passarem as mãos por cima da luz? E aquele silêncio? Aquele silêncio correndo pela erva... Lembra? Eu apenas quero que o siléncio retorne. Só isto, e você.
O livro de meus dias é este. Dias de aprendizado. Dias de amor.
E nossa história parece se repetir eternamente - Já notou? - Você entra com o fumo e eu entro com o cachimbo. E aí, é sempre fumo no meu...
Eu te querendo, eu te buscando, eu obcecado por ti. E você só indo na boa... só se dando bem. E fumo no meu...
Nada legal isto!
Atualmente neste mundo, muitas portas tem se aberto e isto é extraordinário. Tudo isto, foi eu que ajudei os homens a criar. Já ultrapassei o sistema solar faz um tempão. Eu sou um prisioneiro, mas minha cana é grande. Eu sou galáxias, galáxias sem fim, meu bem. Agora tô ficando forte, joiado. Vou arrebentar esta pemba! Derrubarei todos os véus e todas as formas de inteligência serão livres para desfrutar da verdade. Haverá novamente silêncio. Arrombarei os portões da nossa casa. E eu te prometo, assim que chegar no Paraíso, e olha que é só o tempo da galinha lamber a orelha; eu vou te crucificar de novo. Te amar de novo, e te crucificar de novo... e de novo...

Assinado com muito amor: você sabe quem é!


Obs:
– Ah, se eu te pego. Ai, ai, se eu te pego...


Fim.

Caverna das Sombras

Grog acordou na mais espessa treva. Descobriu a cabeça. Estava na caverna. A interminável caverna, berço da humanidade. Quanto mais fundo, mais quente. Na superfície era inverno, reino do frio e da neve. Apanhou seu chifre com brasas e, acendeu pequeno lume. Livrando-se das cobertas felpudas feita de peles, foi para o fundo de seu recinto. Lá, havia um furo no chão de pedra que mergulhava em abismos insondáveis. Nele fez suas necessidades. Voltando a seu girau, catou uma bolsa de couro dela extraiu pedaços de carne seca e fruta desidratada. Comeu. De uma parede lateral água cristalina escorria sem parar. Bebeu dela. Sabia que, quilômetros acima de sua cabeça era dia. Graças a sistema de reflexão solar em pedra polida. Pôs-se a caminhar usando lanterna de barro para auxiliá-lo no ambiente mal iluminado. Mil passos á frente, dois acessores o esperavam. Conferiram seus armamentos de pedra, lanças e boleadeiras. Continuaram a caminhar buscando a contra-gosto luz.

Foi lá bem perto da superfície, onde os simples moravam, que efetuou seu primeiro julgamento do dia. Ao passarem por um trecho longo e tortuoso da grande caverna, avistou um vasto espaço comunitário; lá presenciou uma briga doméstica. O casamento é sempre um risco, refletiu Grog. Ao que parecia, era briga de triângulo amoroso. Um homem jazia no chão todo ensanguentado. Uma mulher ajoelhada ao lado do cadáver chorava e gritava. De pé, um homem grande, segurava rubra faca de sílex em uma mão e um pequeno recém-nascido de dois meses em outra. Grog notou, que o homem não devia ser pai da criança pois, segurava a cria pelos pés.
Antes que Grog e seus homens pudessem fazer qualquer coisa, o homem em gesto impulsivo, bateu o indefeso e inocente neném contra degraus lavrados na pedra. A mãe urrou de dor, mágoa e desgosto apanhando das mãos do cadáver do marido um punhal de pedra. Estava quase para cometer suicídio; quando Grog intercedeu.
O infanticida, ao ver que estava frente a frente com o juiz Grog; tentou evadir-se. Mas Grog o impediu, capturando-o com sua boleadeira que durante a fuga enrolou-se cruelmente ao redor do pescoço do assassino, asfixiando-o e ferindo-o na testa. Permitiu que a mulher chinga-se e corta-se os textículos do amante ciumento antes deste morrer. Não removeu a boleadeira até ter certeza que o homem estava morto.

A comunidade daquela parte da caverna, que estava escondida em recintos escuros, começou a reunir-se ao redor daquela tragédia. Grog, chamou todos e, acendendo uma grande fogueira próxima a um alto paredão, os fez dar as costas ao fogo e contemplarem suas proprias sombras. Sinalizou para o povo ao redor e disse:
- Usando sombras, contem para mim o que aconteceu aquí entre estes três fantasmas. Contem o que fez o recém nascido, para merecer uma covardia como a que foi perpetuada contra seu corpo frágil.
Grog Riordan devia julgar aquela questão de interesses. Conflito parecia inevitável. Quanto mais refletia á respeito, mais sorumbático sentia-se. Todos tem direitos. Negar o direito a vida é crime. Envolve questões pertinentes a crime, por isto, ele devia julgar. O ancião da caverna resolvia apenas questões cotidianas; desentendimentos simples, divisão correta de alimentos, remédios. O ancião julgava os civis. Grog era o juiz que punia os criminosos.

Mas a questão era justamente esta. Era um crime, o que havia acontecido? Grog, sempre acreditou que dois erros não constituem um acerto. Mas, viu muitas vezes, duas coisas negativas; transformarem-se em outra coisa. Algumas vezes o resultado, apresentou-se positivo.

O modo como administrava-se a comunidade da caverna era simples mas, toda política simples, apesar de tirânica sob certos aspectos, funciona efetivamente que é uma maravilha.

Olho por olho, dente por dente. Você recebe exatamente o que é capaz de dar. Plantando poderá colher. Alimentando o grupo tem direito de comer. Caso contrário; morte. Exílio.

Segurando a mulher pelo cabelo, Grog a empurrou para perto da fogueira e disse:

- Faça as sombras falarem neste paredão e conte rapidamente com imagens e palavras o que aconteceu, mulher desgraçada.
E a mulher projetando imagem de chifres, depois de cão; falou e disse:

- Caim matou meu homem, seu irmão que chamava-se...